Faces do Martírio. Anorexia e Santidade.

Faces do Martírio. Anorexia e Santidade.

Este livro é resultado da publicação da tese de doutorado em Psicologia Clínica, defendida por Cybelle Weinberg em 2015, na PUC – SP e inaugura a “Coleção Teses Ceppan” da Clínica de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Anorexia e Bulimia.
A tese tem por objetivo relacionar fatos da vida de Santa Veronica Giuliani, que viveu na Itália na passagem do século XVII para o século XVIII, com a clínica atual da anorexia. É estabelecido um paralelo entre as relações das santas e mártires com a Igreja Católica, e das meninas anoréxicas com suas mães. Vidas marcadas pelo excesso de sofrimento e desejo de alcançar a perfeição.
Weinberg analisa a infância, a adolescência de Veronica Giuliani, a vida no convento, a doença, morte e canonização. Passo a passo a leitura de partes do diário, que nos é apresentada, traz a descrição de um “êxtase anoréxico” que é interpretado como a crença na possibilidade de uma pessoa se unir a um ideal de perfeição.
Casos de automutilação e hemorragias autoprovocadas são descritos com perspicácia. Pacientes que transformam o corpo em sofrimento, que lutam para encontrar uma identidade, uma autonomia e a separação de um objeto materno intrusivo. O desejo de não desejar, a insatisfação com o próprio ego, a negação da sexualidade são características das pacientes anoréxicas. A doença utilizada como caminho de atingir um ideal, seja de magreza, seja de santidade. Perseverança mortal.
Nas considerações finais, a autora descreve a anorexia como uma manifestação da melancolia. Uma forma de compreender esta patologia exige um percurso por textos de Freud, Abraham, Fédida, entre outros autores importantes com os quais o leitor é presenteado nesta obra pela leitura crítica de uma vasta bibliografia.

  • São Paulo: Sá Editora, 2019


A violência dos ideais na Anorexia Nervosa: o eu corporal em ruínas

A violência dos ideais na Anorexia Nervosa: o eu corporal em ruínas

Ana Paula Gonzaga
Cybelle Weinberg

Não entendo porque vocês insistem em mentir para mim. Não entendo porque vocês insistem para que eu coma, se estou explodindo de gorda. Não sei nem porque estão se ocupando de mim com tanta gente doente. Como sempre, só fui mais uma vez incompetente, como tudo que faço! Não entendo porque vocês não me entendem!

Esta fala, de uma adolescente internada em uma enfermaria psiquiátrica para tratar-se de Anorexia Nervosa, parece ter um caráter universal pela forma como representa quem sofre desse transtorno: a descrença no que lhe é dito, ou no que é próprio da realidade; uma distorção, em maior ou menor grau, da imagem corporal, ou da percepção que tem de seu corpo; um prejuízo importante na autoestima; um discurso autoacusatório e o estranhamento que isso provoca tanto em quem acompanha esses casos como nos próprios pacientes.

A chegada destas pacientes na clínica é impactante, não só pela sua indiferença frente aos riscos que correm, mas pelo contraste entre uma aparência cadavérica e um orgulho incontido por mais essa “conquista”. Num primeiro momento, não nos parece estarmos diante de um “eu em ruínas” (pois o que se apresenta é um “eu todo poderoso”), mas sim diante de um corpo em ruínas, e se há uma queixa, é a de que ele pode emagrecer ainda mais.

Via de regra, estamos diante de meninas jovens, que se destacam nos estudos, na prática esportiva, no trato social, mas que por ocasião da entrada na adolescência, “se percebem gordas” e iniciam uma dieta sustentada de forma drástica e sempre insuficiente para seus propósitos. O que começa como uma restrição calórica dispara uma severa privação de tudo ou quase tudo. A preocupação com a rotina alimentar passa a restringir sua vida social, o contato com os amigos, os laços afetivos e quase sempre, a vida acadêmica. Esse processo, que pode levar alguns meses, transforma uma jovem púbere e cheia de vida em uma menina isolada, entristecida, emagrecida e sem viço, a poucos passos da morte, sem se dar conta disso e ainda muito determinada a perder mais um quilo: um ideal passional e absurdo, associado nesse momento `a estética, ou a algo que se defende como estética. Da mesma maneira que devem ser as melhores alunas e estar sempre `a frente do que está sendo ministrado por seus professores, ou serem as melhores atletas etc., criam uma deformação, que é serem as “melhores magras”. Na realidade, o que parece estar sendo encenado é a vontade de alcançar o impossível, sob o imperativo de algum (ns) ideal (is).

A crença de que ainda é preciso perder mais peso, e que tem a forca de uma ideação delirante, nos leva a refletir sobre o que as faz acreditar nessa imagem distorcida, que as induz a iniciar uma dieta tão drástica, a ponto de negar suas necessidades, corrompendo o fio de ligação com a realidade, mesmo não se tratando de pacientes psicóticas.

Na tentativa de entender esse aspecto da subjetividade, que é o dos ideais que essas pacientes se impõem, partiremos da compreensão freudiana do processo de identificação e constituição do aparelho psíquico, considerando as forças pulsionais como seu motor.

Ao longo de sua obra, Freud sempre se ocupou e chamou a atenção para um modelo evolutivo da mente humana, composta por diferentes extratos não estanques. O modelo de aparelho psíquico proposto é, dessa forma, maleável e passível de adquirir diferentes configurações ao longo da vida, em função das demandas advindas do mundo externo e/ou das exigências pulsionais. Assim, os aspectos originários desse aparelho, que leva em conta elementos constitucionais e relacionais primários, e que determinarão constelações significativas na vida do sujeito, também configurarão novos arranjos ao longo de seu desenvolvimento, sem perder a qualidade de um processo que implica acontecimentos simultâneos e em diferentes instâncias, concomitantemente. Uma dimensão nesse complexo processo se passa na evolução do movimento identificatório.

Como bem assinala Silvia Bleichmar (2005), o que inaugura o pulsional na cria humana é “um outro humano, que é um adulto imbuído de sexualidade e que desconhece a existência do prazer sexual obtido nestes cuidados oferecidos ao recém-nascido , já que a fonte que o ativa é o inconsciente” (p. 131). Bleichmar afirma o caráter traumático e irredutível dessa implantação e postula, seguindo a teoria freudiana, que o trabalho psíquico que se impõe a essa mente incipiente será o de encontrar vias de descarga, ou de ligação, para as quantidades excedentes. Esse é o primeiro tempo da vida psíquica: o da instauração da pulsão, dado pelo desejo inconsciente materno. O segundo tempo caracteriza-se pela constituição do recalque originário, que tem por consequência a saída do autoerotismo e a instauração do ego constituído pelo narcisismo e pela base das identificações, em que o outro que interage com o bebê continuará tendo um lugar de importância, pois “se por meio de seu inconsciente a mãe excita a cria, ao mesmo tempo, a partir de suas representações egoico-narcísicas do pré-consciente, ela pode ver seu bebê como um todo, como uma Gestalt organizada, como um ser humano. A libido desligada, intrusiva, que penetra, será portanto ligada inicialmente por vias colaterais, por meio deste narcisismo estruturante que o vínculo amoroso propicia.” (opus cit., p. 132)

Vetttorazzo (2007) ressalta a ideia do papel estruturante do narcisismo no processo de constituição do ego e aponta o caráter de composição em camadas desse processo. Recorre a Freud e seu modelo das “cascas de cebola” para configurar o dinamismo e a complexidade desse movimento: “cada camada pode se constituir assim em um vértice diferente para se considerar a “condição narcísica” nos diferentes estágios da estruturação do eu e de suas vinculações com os objetos” (p.4). Daí derivaria um terceiro tempo, também proposto por Bleichmar, de instauração das instâncias ideais, tendo por referente essas identificações.

Sobre a importância e complexidade desses tempos inaugurais e seus desdobramentos clínicos afirma Vettorazzo, citando Bleichmar:

“…O ego não se constitui no vazio, mas sim sobre as bases das ligações prévias entre sistemas de representações pré-existentes e que estas ligações, tal como Freud descreveu no Projeto, consistem em investiduras colaterais. Em segundo lugar assinala que este ego que produz inibições e propicia ligações no decurso excitatório não está presente no vivente no início da vida. Corresponde ao outro humano, adulto, que, além de prover recursos para a vida, inscreva também de início estes recursos em sua potencialidade de “pulsão de vida”, quer dizer, de ordenamento ligador que propicie uma articulação da tendência regulada `a descarga” (opus cit., p. 7)

Assim, se por um lado “o ego instaura-se sobre um conjunto de ligações que asseguram sua estabilidade” (Bleichmar, opus cit., p.134), dele também derivarão as instâncias ideais ou o superego, em seu sentido de ego ideal e ideal de ego. Daí a importância de considerarmos esse “caldo” de representações e seus desdobramentos nos arranjos em que se constelarão essas instâncias. Ainda segundo Bleichmar, se prevalecem identificações narcisistas na constituição do ego, essas bases perecem em sua função de estabilidade e prevalece, na formação de agências superegoicas, o ego ideal narcisista. O que seria próprio `as patologias graves que, “apesar de não serem consideradas como psicóticas, não chegam também `a neurose: pseudo-self, estruturação borderline” (p. 134).

Considerar essa compreensão dos primeiros tempos de instalação do aparelho psíquico, que inclui a constituição do ego e sua derivação para as instâncias ideais sob a regência das identificações narcísicas, nos parece fundamental para discutirmos os aspectos dinâmicos que se encenam na Anorexia Nervosa.

O eu em ruínas ou um corpo em ruínas?                 

“Há um excesso de Laura em mim! Vejam como sobra…”

A angústia presente nessa fala é quase palpável, mas, ao mesmo tempo, difícil de se reconhecer como pertinente. Não é incomum que profissionais que tratam essas pacientes tentem convencê-las, lhes oferecendo os mais diferentes elementos de realidade, de que o que estão percebendo ou sentindo não corresponde ao factual. Tarefa inglória e sem sucesso: elas estão convictas de que há uma deformaçnao em seu corpo que se reflete, inclusive, no espelho.

Mas de que corpo estão falando? O engano parece se dar justamente quando ignoramos o corpo refletido no espelho. J.D. Nasio (2008), seguindo as conceituações de imagem corporal inconsciente, nos adverte: “todas as manhãs as pessoas se defrontam, diante do espelho, com duas imagens: a que está refletida, e a que é apenas sentida. A fusão dessas duas imagens do corpo – uma física, outra mental – define o eu de cada um”. Ainda segundo Nasio, “o eu é o si mesmo identitário, a fronteira filtrante do aparelho psíquico e, sobretudo, a imagem mental do corpo sentido” (p. 101).

Nasio parte das concepções de Lacan e Dolto para chegar `a compreensão de um eu corporal e imagético. Considera que a imagem inconsciente do corpo será composta “pelo conjunto das primeiras impressões gravadas no psiquismo infantil pelas sensações corporais que um bebê, até mesmo um feto, sente ao contato de sua mãe, ao contato carnal, afetivo e simbólico com sua mãe” (opus cit., p. 19). Circunscreve esse período aos primeiros três anos de vida em que a imagem do corpo será então significada por duas importantes descobertas. A primeira se refere ao estádio do espelho, proposto por Lacan, – quando o bebê pela primeira vez percebe-se refletido no espelho e compreende, ainda precariamente, tratar-se de sua imagem – como precursora e constitutiva do que seria um reconhecimento de si, como uma imagem global. A segunda, por volta dos três anos, quando a criança novamente será confrontada com sua imagem especular, só que dessa vez compreende “com amargura, que o reflexo que o espelho lhe devolve não é ela, que há uma defasagem irredutível entre a irrealidade de sua imagem e a realidade de sua pessoa” (opus cit., p. 19). Essa segunda descoberta é postulada por Dolto, como uma reação, traumática, por decepção e desencantamento, que promoveria o esquecimento das imagens inconscientes do corpo e o investimento do que é a aparência do corpo. Assim, ainda segundo Nasio, “a amargura da desilusão dá lugar `a astúcia inocente de uma criança que utiliza sua imagem especular em prol de seu narcisismo” (opus cit., p. 21).

Destacamos então, a importância das primeiras relações estabelecidas pelo bebê e sua mãe na constituição tanto do ego que representará as identificações narcisisantes, como postula Bleichmar; como na constituição das imagens inconscientes do corpo discutidas por Nasio e referenciadas na obra de Dolto. O eu determinado e subjetivado por esse conjunto de refrências – que obviamente são apenas parte da constituição do eu – trará consequências significativas na percepção e representação corporal de qualquer pessoa.

No caso das pacientes com anorexia, o corpo visto parece refletir o aprisionamento narcísico em que se encontram. O que está arruinado, maculado, deformado, é um corpo imaginário, representante de um ideal impossível de ser atingido. Assim, perseguem a perfeição, que quando não atingida, diante de suas altas exigências, transforma-se num fracasso de proporções catastróficas.

Fernandes (2008) ressalta que “essas jovens nos ensinam que mais do que um superego herdeiro do complexo de Édipo, esses casos nos confrontam com um ego ideal verdadeiramente tirânico, que concentra suas exigências na experiência do corpo.” Propõe ainda que se considere a derivação do ego ideal do narcisismo primário, o que nos permite vislumbrar “que esse ego ideal é, antes de tudo, corporal” (p. 215).

A violência dos ideais

“Quando não consigo me controlar e como, tenho que me punir: me corto, me mordo, me arranho…”     

Os sentimentos de decepção e frustração são frequentes e intensos nessas pacientes, indo desde uma autoacusação até atos praticados contra sua própria integridade. Castigar-se, punir-se, acusar-se, machucar-se, faz parte de uma rotina diante do que acreditam ser um fracasso por não conseguirem cumprir o contrato que fizeram consigo mesmas de não comer.

O início desses transtornos se dá, via de regra, com a entrada na adolescência, momento evolutivo que demanda a ressignificação e a consolidação dos elementos psíquicos subjetivados na infância. Autores como Aberastury e Knopel (1981) assinalam os lutos a serem elaborados nesse tempo que a adolescência inaugura, pela perda do corpo infantil, pelos pais, pela identidade infantil e pela bissexualidade. O que gostaríamos de ressaltar além do luto patológico vivido por essas adolescentes, é como os elementos que estamos destacando até aqui se integrarão a esses lutos.

Em artigo intitulado “Observações sobre a estrutura psicótica” (1994), Piera Aulagnier afirma a importância dessa primeira fase do desenvolvimento, que vai desde o nascimento até o momento de “enfrentamento entre o eu e seu ego especular” e desenvolve a ideia de que “esse momento fecundo que é o estágio (estádio) do espelho não é, em si mesmo, mais que um ponto de chegada” (p. 283). Ou seja, ele marcaria um ponto de uma história que teve seu início muito antes, no discurso parental, e que garantiu ao sujeito um lugar na cena familiar. Muito antes do parto, segundo Aulagnier, uma relação imaginária estabeleceu-se entre a mãe e o bebê:

“… o início da gravidez coincide – ou acentua – com a instauração de uma relação imaginária, na qual o sujeito filho não é representado pelo que é na realidade, um embrião em curso de desenvolvimento, mas pelo que, de um outro lugar, é denominado corpo imaginado, ou seja, um corpo completo e unificado, dotado de todos os atributos necessários para ele. […] e sobre essa imagem, suporte imaginário do embrião, se verte a libido materna. A imposição dessa imagem é tal que, nos primeiros tempos de vida, a vemos sobrepor-se `a criança.” (opus cit., p. 285)

De acordo com as suas observações, continua Aulagnier, tudo isso parece bastante óbvio. No entanto, não é o que acontece com aquelas mães que, com dificuldade para percorrer esse caminho, passam a gravidez observando as modificações de seu próprio corpo, não conseguindo imaginar aquele embrião como um corpo unificado e separado dela. Esse seria o funcionamento das mães das crianças psicóticas. O que, nos parece, não é o caso das mães das meninas anoréxicas. As mães das meninas que atendemos parecem ter percorrido um caminho oposto a esse, no sentido de terem superinvestido seus bebês. O que tem por consequência, uma prevalência desse corpo imaginado, com que foram sobrepostos pelo narcisismo materno, muito além “dos primeiros tempos de vida”.

Aprisionadas num lugar psíquico da mente materna, essas meninas carregam, instalada em sua imagem corporal, um estranhamento e uma terrível insatisfação, fruto de uma dívida impossível de saldar: a de ser a restituição narcísica para sua mãe. Tarefa hercúlea para essa menina, mas que é levada com razoável desempenho durante a infância, quando a mãe ainda tem poder sobre seu corpo, por meio de seus cuidados. No entanto, no momento da adolescência, quando esse corpo toma formas próprias, a menina, além de precisar fazer um luto pela perda do corpo infantil, vive o fracasso de não ter correspondido `aquele corpo imaginado por sua mãe. E quanto mais o corpo real não obedece e se afasta daquele idealizado, mais é preciso punir e castigá-lo.

Do lado dos pais, o que se vê é o estranhamento, como tão bem definiram Corso & Corso (1997): “os controles não funcionam mais, não respondem. Isso explica inclusive algumas desistências. Não são poucos os pais que, depois da chegada da adolescência dos filhos, jogam a toalha como se não houvesse mais nada a fazer”. Como diante de um jogo de videogame, “sentem-se impotentes diante da fatídica expressão game over […], o que, mesmo diante de uma boa pontuação, equivale a: “Cara, suas chances acabaram!” (p. 81).

“Suas Majestades os Bebês” chegam `a adolescência

“Não entendemos o que está acontecendo com a nossa filha… Sempre lhe demos tudo, nunca lhe faltou nada… Onde será que erramos?”

Uma das tantas dificuldades enfrentadas pelo profissional que atende pacientes anoréxicas é o manejo com os pais. Acostumados a lidar com uma menina dócil, obediente, filha e aluna “perfeita”, de repente encontram-se diante de uma filha que desconheciam: irritadiça, teimosa e dona de uma vontade férrea. Desconcertados, oscilam entre a necessidade de alimentá-la e deixá-la cuidar de sua própria dieta, intimidados diante de alguém que vence pela teimosia e pelo cansaço.

Perguntamo-nos, então, de onde viria essa força, essa capacidade para controlar a fome, o peso e, “de quebra”, a família? E por que irromperia na adolescência?

Para Hilde Bruch (1973), essa força esconderia a fragilidade e a incapacidade de controlar elementos importantes de suas próprias vidas, e a severa disciplina sobre seus corpos representaria o esforço desesperado de afastar o pânico de não ter poder. O excessivo interesse pelo corpo e seu tamanho, e o rígido controle sobre a comida, seriam sintomas tardios de uma luta desesperada contra o “sentimento de ser escravizado”, de não ser competente para levar uma vida própria. Nesta busca cega pela sua identidade, as jovens anoréxicas não aceitam o que seus pais e o mundo lhes oferecem: preferem passar fome a levar uma vida acomodativa.

Mario Rossi Monti (2008), em artigo que trata do contrato narcísico e da clínica do vazio, nos oferece importantes reflexões sobre a adolescência, e que podem ser transpostas para a presente discussão. O autor toma de Piera Aulagnier (1979) a ideia de um contrato narcísico implícito, que regularia a relação entre as gerações, vinculando uma `a outra e garantindo um lugar ao recém-chegado. Essas formulações, nos lembra Monti, já estavam presentes em Freud, na sua Introdução ao Narcisismo (1914):

“… se considerarmos a atitude daqueles pais especialmente ternos com seus filhos, temos de reconhecer que essa atitude é um novo despertar e uma reprodução do próprio narcisismo, do qual os próprios pais tinham desistido havia tempo (…). Ao mesmo tempo, esses pais também tendem a suspender, em favor da criança, todas as aquisições da civilização que seu próprio narcisismo fora obrigado a respeitar, e tornam a reivindicar, pela criança, privilégios dos quais tinham desistido havia tempo (…) Doença, morte, renúncia do prazer, restrições impostas `a vontade pessoal não devem ter validade para ela; as leis da natureza e da sociedade devem ser revogadas em seu favor, ela deve mais uma vez se tornar realmente o centro, o cerne da criação – aquela “Sua Majestade o Bebê” que outrora os pais se sentiam (…).” (p. 108)

A partir destas teorizações, Monti observa que, se isso era verdadeiro na época de Freud, nos tempos atuais, com o isolamento das famílias e a mortalidade infantil controlada, há uma valorização da infância nunca antes vista e o estabelecimento de um lugar especial para essas crianças, que realmente tornam-se os soberanos de suas famílias. Sentadas nesse “trono de verdade”, um “trono armadilha”, do qual é difícil descer, terão tudo e não terão nada, impedidas de se arriscar e construir sua próprias vidas. Quando crescidas, diante da fragilidade e do vazio de suas existências, “assistirão `a ruína das próprias ilusões megalomaníacas”. (opus cit., p. 251)

Perguntamo-nos, então, se ocorreria o mesmo com as anoréxicas de que estamos falando.

“Eu e meu pai sempre andávamos de mãos dadas e ele dizia que eu era a sua princesa… Agora tudo mudou.”

Meninas, em sua maioria filhas únicas ou primogênitas (1) colocadas no trono desde o nascimento – ou antes -, sempre corresponderam `as expectativas de seus pais: obedientes, cumpriram ao pé da letra a missão de prolongar narcísicamente as suas vidas. No momento da adolescência, chamadas a assumir as rédeas do seu destino, confrontam-se om a impotência e com o sentimento de estarem traindo seus pais. Sensação, esta, confirmada pelo afastamento deles, decepcionados e magoados com “sua princesa”, que não lhes obedece mais.

Mas que desobediência é essa? Elas não se opõem `a carreira profissional escolhida por eles, não se rebelam quanto `a exigência de horários, não reivindicam o direito de sair de casa quando e como bem entenderem. Simplesmente, param de comer! E passam a perseguir um ideal que, se atendido em sua totalidade, levam-nas `a morte. Mas a uma morte escolhida por elas, com um peso determinado por elas e do jeito que elas decidiram:

“Eu tiro o chapéu para quem morre de anorexia… Porque morrer magro de aids ou de câncer não tem mérito nenhum… Tem que morrer magro de anorexia, aí sim é que vale…”

Vale o quê? Vale decidir sobre a própria morte. Ideal de onipotência, que mascara a impotência de viver sua própria vida. Soberania e soberba de quem não tem nada, de quem triunfa sobre um ego arruinado, refletido, segundo Fernandes, “no espelho mortífero de seu ego ideal” (opus cit., p. 215).

 

Referências

 ABERASTURY, A.; KNOBEL, M. Adolescência normal. Porto Alegre: Artmed, 1981.

AULAGNIER, P. A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: , 1979.

____________ Un intérprete en busca de sentido. Madrid: Siglo veintiuno, 1994.

BLEICHMAR, S. Clínica psicanalítica e geogênese. São Paulo: Annablume, 2005.

BRUCH, H. Eating disorders: obesity, anorexia nervosa and person within. New York: Basic Books, 1973.

CORSO, M.; CORSO, D. L. Game over.  O adolescente enquanto unheimlich para os pais. In: Adolescência: entre o passado e o futuro. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.

FERNANDES, M. H. As mulheres, o corpo e os ideais. In: FERRAZ, F. (org.) Psicossoma IV. Corpo, história e pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

FREUD, S. (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras Completas, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

MONTI, M. R. Contrato narcisista e clínica do vazio. In: Rev. Latinoam. Psicopat. Fund. São Paulo, V. 2, junho 2008.

NASIO, J. D. meu corpo e suas imagens. Rio de janeiro: Zahar, 2009.

VETTORAZZO F., H. “O espelho” no mito de Narciso, em Machado de Assis e em Guimarães Rosa: o narcisismo pensado como condição de estruturação do Eu. Trabalho apresentado em Reunião Científica da SBP SP, maio 2007.

  • Dados coletados pela Clínica de Estudos e Pesquisas da Anorexia e Bulimia (CEPPAN).

Artigo publicado originalmente em MARRACCINI, E. M. (org.) O eu em ruína. Perda e falência psíquica. São Paulo: Primavera, 2010.

Sob o olhar da Santa Madre: articulações entre a vida de Santa Veronica Giuliani e a clínica da anorexia

WEINBERG, Cybelle. Sob o olhar da Santa Madre: articulações entre a vida de Santa Veronica Giuliani e a clínica da anorexia.
Tese (Doutorado em Psicologia Clínica).

São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015.

A tese intitulada Sob o olhar da Santa Madre: articulações entre a vida de Santa Veronica Giuliani e a clínica da anorexia tem por objetivo relacionar fatos da vida de Santa Veronica Giuliani, que viveu na Itália na passagem do século XVII para o XVIII, com a clínica atual da anorexia. A análise de seus diários e os registros do processo de canonização mostram quanto seu modo de vida perseverante, marcado por períodos de jejum intenso, pela violência contra o próprio corpo e busca da santidade – sob os olhos complacentes da Igreja -, aproxima-a das pacientes com sintomas anoréxicos de hoje. A tese estabelece, também, um paralelo entre dois tipos de relação: o das santas e mártires do Cristianismo com a Igreja (a Santa Madre), e a das meninas anoréxicas com suas mães. Cúmplices em um projeto mortífero, essas duplas atendem ao apelo de um ideal de perfeição. Distantes umas das outras por vários séculos, apresentam os mesmos sintomas, manifestações de um superego atemporal transmitido através das gerações. A análise dessas vidas – marcadas pelo excesso – mostra como um Ideal, nascido e construído nos inícios da era medieval ocidental, transcende os tempos e se revela na singularidade de cada um.

Iles flottant: os seios de Alaíde

Iles flottant: os seios de Alaíde

Iles flottant: os seios de Alaíde

Conheci Alaíde no primeiro ano da faculdade de Filosofia, em 1968. Um ano de descobertas, em que eu não entendia nem metade do que estava acontecendo.

Imagine o que era um curso de Filosofia na PUC, naqueles anos de repressão. Tínhamos apenas dois professores dando aulas (os outros, não sei por onde andavam): o Monsenhor Santamaria, um padre gordo espanhol, que ensinava filosofia oriental – sabíamos tudo sobre os Upanishades – e o padre Araujo, sempre suado, fedido e com uma roupa encardida, que dava as aulas de filosofia medieval. Como, além disso, tudo era considerado subversivo, só no último semestre do último ano ouvimos falar um pouco de Kant. Mesmo assim, aquela história de imperativos categóricos (o quê? imperialismo categórico?) “não sei não…”!

Isso dentro da sala de aula. Fora era um tal de assembléias que não acabava mais, filmes “cabeça” no Tuca, greves contra o Mec-Usaid. Eu confesso que achava aquilo tudo uma festa… Claro que eu também saía nas passeatas e atirava pedras no Citibank. Mas no fundo, morria de medo, porque tinha gente que não voltava dessas passeatas, ou voltava bem estropiado, cheio de hematomas. Tudo era perigoso, podiam entrar dentro da casa da gente para procurar uns livros… Corria um boato que tinha até gente desaparecida, que nem o pai e a mãe sabiam onde estavam.

Mas a nossa verdadeira preocupação, minha e das amigas recém-saídas do Colegial, era saber “até onde podíamos ir” com os nossos namorados. Isso era assunto polêmico, motivo de discussões intermináveis. A Revolução Sexual estava apenas começando… E era essa a revolução que nos interessava! Tinha a ala radical – das “liberadas” – e a ala moderada, das que achavam que se podia avançar, sim, porém aos poucos e estrategicamente. As estratégias, obviamente, não podiam ser discutidas em qualquer lugar. Para isso tínhamos o nosso “aparelho”, a casa da Alaíde. Ali Marx não entrava, mas entravam todos os outros barbudos da PUC – pelo menos em fantasia.

Alaíde era a menina mais bonita da turma. Era muito branca, com cabelos compridos, sedosos, naturalmente lisos e loiros. Isso mesmo: na-tu-ral-men-te lisos e loiros, não precisava clarear com chá de camomila nem fazer “touca”. De morrer de inveja! A boca, então, era algo indescritível: lábios brilhantes, carnudos, cor-de-rosa (tudo isso sem batom nem brilho), sempre abertos num sorriso gostoso, o mais franco que eu já vi. E o melhor de tudo: Alaíde era livre.

Nunca conhecemos seu pai. A única explicação que ela nos deu foi que, num belo dia, seus pais se separaram e ele foi embora. Só! Desde então, sua mãe trabalhava fora. Outra novidade, porque os pais naquela época não se separavam e as mães não trabalhavam fora de casa. Alaíde reinava sozinha naquele sobradão. Era o lugar ideal para nossas reuniões. Obviamente o pretexto era estudar, fazer trabalhos em grupo, pesquisar. Mas confesso que meu principal interesse de pesquisa era a vida sexual dela. Mas vamos por partes.

Em casa, Alaíde estava sempre de camisola, a qualquer hora do dia. Ela nos recebia assim, com aquela camisola de algodão, um quase nada transparente, com estampas de florzinhas, franzido no ombro. Parecia um anjinho de procissão, não fosse o detalhe de não usar soutien e ter sempre um cigarro na mão. Porque, Jesus, ela também fumava! Na própria casa, não precisava esconder… Imagine! Eu, se meu pai me pegasse fumando, me faria engolir o cigarro aceso. Ainda bem que eu nunca consegui fumar, apesar de ter me esforçado. Tentei até um cigarro mentolado – chamava-se Consul – mas eu sempre tossia muito e, quando insistia, quase vomitava.

Outro detalhe: ela gostava de estudar no quarto, sentada na cama, com todos aqueles livros abertos, cadernos, pastas, xerox. Só que às vezes tudo aquilo estava no chão, e a cama um verdadeiro ninho de mafagafos. Então ela explicava, com aquela cara mais normal do mundo, que Fulano ou Ciclano tinha vindo estudar e que, “bom, aconteceu!”.

“Como assim?”, eu perguntava, já antecipando o exercício da minha futura profissão.

Ela respondia que “tinha acontecido” e eu não me conformava que pudesse “ter acontecido” ali, na casa dela, com um cara que nem era seu namorado… O que será que tinha acontecido? “Teria acontecido mesmo?

E como as perguntas continuassem, ela dizia que depois contaria, que era hora de estudar. E vá se concentrar em Santo Tomás de Aquino com aquela curiosidade toda, a excitação “a mil”.

Finalmente chegava a hora de comer alguma coisa, fazer um lanche, “dar uma pausa”. Íamos para a cozinha e aí era o máximo. Ela colocava em cima da pia um monte de ovos, o litro de leite e o pote de açúcar. Com uma facilidade espantosa, ia quebrando os ovos e separando as claras das gemas. Tudo separado, misturava as gemas com o leite já adoçado e punha para ferver. E começava a bater as claras, andando de um lado para outro, os seios em liberdade, contando “como tinha sido”.

Eu ficava absolutamente fascinada, mas já não me lembro se era por causa das histórias ou por causa do cheiro de leite doce fervendo. Certamente eram os dois. Eu me lembro que tinha também um cheiro de baunilha, mas ela jura que não tinha baunilha na receita (para escrever essa receita, eu descobri o telefone dela, liguei e perguntei). Então eu acho que o cheiro de baunilha era mesmo dela. Eu não me espantaria se fosse …

Aí vinha uma parte que eu achava que era coisa de circo. Ela pegava, com uma escumadeira, uma porção de clara daquela montanha branca e jogava no leite fervendo. Depois de cozida, ela retirava aquela ilha de neve com cuidado e a colocava em uma taça de vidro. Fazia assim com cada uma delas, até não sobrar mais clara. Então, com uma colher de pau, mexia bem o leite, que a esta altura já tinha engrossado, e ia jogando essa calda sobre as ilhas. Estava pronto, mas ainda era preciso deixar esfriar. Voltávamos para os livros, minha concentração ainda mais reduzida, torcendo para aquela maravilha esfriar logo e procurando, nos lençóis, os vestígios de suas histórias. Seriam verdadeiras ou não? Até hoje não sei…

Finalmente, quando ela achava que o doce já devia estar frio, voltávamos para a cozinha. Essa, então, era a verdadeira liberdade, porque podíamos comer até enjoar. Ninguém se preocupava com dietas, calorias e celulites, palavras que só vim a ouvir décadas mais tarde. E como aquilo que não se conhece não existe (pra isso vale estudar filosofia), nunca soubemos que aquelas covinhas todas no bumbum, tão simpáticas, tinham um nome: ce-lu-li-tes.

Não sei quantas tardes dessas, deliciosas, passamos juntas. Só me lembro que nos afastamos quando Alaíde começou a namorar um “cara de direita” e eu, um dos tais barbudos das assembléias. Por motivos ideológicos e por compartilharmos das ideias dos namorados, nos separamos. O que foi uma grande estupidez, porque com o tempo terminamos os namoros e ser “de direita” ou “de esquerda”, hoje, já não faz mais tanta diferença! E ficamos muitos anos sem ter notícias uma da outra.

Quando a vi pela última vez, há mais ou menos cinco anos, ela continuava linda nas suas formas generosas, os seios ainda empinados (agora com silicone), mas o olhar já não brilhava tanto: tinha um quê de tristeza nele. No entanto, quando perguntei se ela ainda fazia as ilhas flutuantes, ela deu uma boa gargalhada, bem debochada, e respondeu: “Não, não faço mais. Quem faz esse doce agora é meu filho, e faz muito melhor do que eu. Cada menina que ele conhece, ele leva pra casa, faz esse doce e elas ficam encantadas… Ah, aquele sedutor!”

Publicado originalmente em WEINBERG, C. (org.) Sabores inconscientes. Receitas sem culpa. São Paulo: Sá Editora, 2008, p. 65-70.

Sobre a vocação

Sobre a vocação

Uma das 22.000 páginas manuscritas que formam 44 volumes, conservadas no arquivo dos Capuchinhos da Città di Castello, Itália.

Sobre a vocação

Discorrer sobre a vocação é falar sobre um chamamento, uma voz indefinida e sem corpo que nos convoca a agir. Seguir uma vocação, acredito, seria dar sentido a uma voz que clama e exige trabalho.
A escrita literária, bem como a religiosa e a do clínico poderiam ser tomadas como exemplos desse trabalho.
Sobre a necessidade de escrever ficção, nos fala Vargas Llosa que ela é, para ele, uma verdadeira obsessão, uma forma de colocar em palavras os fantasmas que o atormentam. Para santa Verônica Giuliani, que viveu na época do barroco italiano e escreveu suas memórias até bem próximo de sua morte, escrever foi bem mais do que uma exigência do Santo Ofício. Seus diários somam 22.000 páginas e ela mesma se perguntava por que escrevia tanto. Para o clínico, escrever talvez seja um modo de desligar-se das vozes da clínica, criando uma distância que propicia a entrada no universo das representações.

A vocação literária

“Creio que o ideal é viver como se fôssemos imortais. Continuar nossa vida com os mesmos projetos e as mesmas ilusões com que começamos a viver. Isso é possível se fazemos o que gostamos, se nossa vida está dedicada a materializar uma vocação que significa que a recompensa obtida é o ato mesmo de exercitar essa vocação.”
                                                                                                                                                                                           Mario Vargas Llosa

A citação acima, retirada de uma entrevista concedida pelo escritor Mario Vargas Llosa ao jornalista Ricardo Setti (1), logo após este ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura, em 2010, instiga todo aquele que se interessa pelo tema da vocação e da sua relação com a escrita. Ali, como em tantas outras ocasiões, o autor conta como, em dado momento de sua vida, optou por ser escritor e que, a partir dessa decisão, dedicou-se com obstinada disciplina a “exercitar essa vocação”. Em Cartas a um jovem novelista (2), por exemplo, dedica várias páginas à questão da vocação literária, afirmando que ela seria

“… uma predisposição de origem obscura, que leva certas mulheres e homens a dedicar suas vidas a uma atividade para a qual, um dia, se sentem chamados, quase obrigados a exercê-la, porque intuem que somente exercitando essa vocação – escrevendo histórias, por exemplo – se sentirão realizados, de acordo consigo mesmos, evocando o melhor que possuem, sem a miserável sensação de estar desperdiçando suas vidas.” (p.13)

Sobre a origem dessa disposição para inventar seres e histórias, que segundo o autor é o ponto de partida da vocação de escritor, a explicação estaria na rebeldia, pois para ele

“quem se abandona à elocubração de vidas distintas daquela que vive na realidade, manifesta, desta maneira indireta, seu rechaço e crítica à vida tal como é, do mundo real, e seu desejo de substituí-los por aqueles que fabrica com sua imaginação e seus desejos. Por que dedicaria seu tempo a algo tão evanescente e quimérico – a criação de realidades fictícias – quem está intimamente satisfeito com a realidade real, com a vida tal como a vive?” (p. 15)

Para demonstrar a força desse chamamento, dessa vocação para escrever, Vargas Llosa usa o interessante exemplo das mulheres do século XIX que, para emagrecer, ingeriam comprimidos com ovos da tênia (ou solitária). Tal qual aquelas mulheres que levavam em suas entranhas esse horrendo parasita – que ao se instalar em um organismo o consome e dele se alimenta -, também o escritor carrega consigo uma espécie de solitária:

“A vocação literária não é um passatempo, um esporte, um jogo refinado que se pratica em momentos de ócio. É uma dedicação exclusiva e excludente, uma prioridade a que nada pode antepor-se, uma servidão livremente eleita que faz de suas vítimas (de suas ditosas vítimas) escravos. (…) Pois a vocação literária se alimenta da vida do escritor nem mais nem menos que a comprida solitária dos corpos que invade.” (p. 19)

A vocação religiosa

“Um dia, rezando diante de uma imagem, pareceu ouvir essas palavras: à guerra, à guerra. Orsola pensou ser um chamado do céu para preparar-se a combater com armas, em uma missão semelhante à de Santa Joana D’Arc. Mas se enganara: ela deveria estar pronta para lutar pela sua vocação.”
Daniele Luchetti

Santa Veronica Giuliani (1660 – 1727), chamada Orsola ao nascer, pertenceu a uma rica família católica italiana da cidade de Mercatello. Criada por uma mãe extremamente religiosa, desde muito pequena conviveu com imagens e histórias de vida de santos e mártires, que procurava imitar.

Ao fazer a sua primeira comunhão em Piacenza, segundo Luchetti (3), Orsola teria “coroado um sonho que a atormentava desde muito tempo” e ao tomar a hóstia, “o propósito de se tornar monja se transformou em uma decisão irremovível”. Assim, enquanto suas irmãs se preparavam para a entrada no convento, manifestou ao pai seu desejo de segui-las, ao que ele se opôs terminantemente:

“O pai não ficou contente: dentre as filhas, ele tinha uma preferência particular por Orsola Por que? Não se pode dizer com precisão. É certo que a menina possuía uma beleza excepcional, uma inteligência aguda, desenvoltura, vivacidade na comunicação; tinha todas as qualidades para triunfar. Parece que o pai tinha ambições: um casamento “acertado” serviria para galgar ainda mais alto na sociedade. Opôs-se, portanto, obstinadamente à vocação. Inicialmente procurou através de boas maneiras persuadi-la, mas quando a filha se tornava mais obstinada ao se propósito, recorre a outros argumentos. Assim esperava poder sufocar as suas aspirações.” (p. 19)

Já rico nesta época, o pai mostra-lhe um mundo de luxo e elegância e a obriga a aceitar a corte de inúmeros pretendentes. Mas, diante de sua obstinada recusa em aceitar qualquer um deles, Orsola é enviada de volta a Mercatello, aos cuidados do tio, que compartilhava das idéias de oferecer-lhe um bom casamento.

“Nesse meio tempo os pretendentes à sua mão, de Piacenza, vieram a Mercatello. Também os jovens da região não a deixavam tranquila. A vocação corria sério perigo de naufragar. (grifo meu) Entre tantas angustias o único conforto para a menina era a oração; mas muitas e muito intensas eram as lutas para sustentar, que por fim foi acometida de um mal difícil de ser identificado. O tio não demorou a entender que o seu mal era mais psicológico que físico. E ela só melhorou quando o tio e o pai prometeram ajudá-la na vocação. Mas a luta não tinha terminado: a notícia que Orsola tinha finalmente obtido o consentimento levou muitos jovens que aspiravam por sua mão, à desilusão, aos quais todas as armas pareciam boas para tentar a última esperança. Mesmo as irmãs, já monjas, receberam a notícia com aflição; também outras pessoas ligadas à família tentaram junto a Orsola, num último esforço. Tudo foi inútil. Orsola se fez surda a todas as vozes que não fossem aquelas da vocação.” (p. 21)

No convento, sua vida foi marcada por uma sucessão de penitências, tão exageradas que chegavam a preocupar seus confessores. E seus jejuns, severos e prolongados, acabaram por chamar a atenção das autoridades eclesiásticas. Depois de aparecer marcada com as chagas de Cristo nos pés e no peito (as estigmas), o Santo Ofício, em 1693, representado pelo seu confessor P. Ubaldo Antonio Cappeletti, exigiu que Verônica escrevesse sua autobiografia, reescrita mais duas vezes, até que se mostrassem satisfeitos com os relatos de suas experiências místicas.
Além da obrigatoriedade de escrever e reescrever suas memórias, outras medidas rigorosas foram tomadas pelo Santo Ofício: Verônica foi submetida a humilhações e a “provas verdadeiramente desumanas”, impedida de comunicar-se com os familiares e afastada da função de professora das noviças. Somente em 1716, convencidos da veracidade de suas experiências, os representantes do Santo Ofício suspenderam as ordens disciplinares e Verônica retomou suas funções, sendo eleita abadessa do convento, cargo que ocupou até 1727, ano da sua morte.

Tendo contrariado o pai, descartado os prazeres de uma vida luxuosa, resistido aos ataques das irmãs e da superiora do convento, sobrevivido às exigências do Santo Ofício e enfrentado demônios que a tentavam para que se afastasse do seu caminho – como afirma em seu Diário (vol. V, p. 710, citado por Luchetti, p. 56) -, Verônica é exemplo de perseverança no cumprimento de um chamado para o qual dizia ter sido um dia convocada.

A vocação clínica

“O clínico é convocado por uma voz, sempre complexa e misteriosa, que, se escutada do ponto de vista pulsional, refere-se às doenças. E o que almeja o clínico quando atende a essa voz pulsional, que é a expressão de um desejo de cura? No fundo desse desejo de cura não estaria o desejo de eternidade?”
Manoel Tosta Berlinck

O que seria, para Berlinck (4), essa voz indefinida, sem corpo, esse chamamento que invoca e nos convoca, levando a uma ação? Expressão de uma energia, e portanto de uma pulsão, essa voz (do latim evocare), clama e exige sentido. Dependendo de sua origem dentro do aparelho psíquico – se vem do superego, por exemplo -, ela pode nos convocar para destinos muito pesados, aos quais nem sempre se quer ou se pode corresponder. E o sentido que damos a essa voz – a sua tradução em palavras -, chamamos de vocação.

Ter uma vocação, no entanto, por si só não basta. Primeiro, porque nem sempre ela é clara: para alguns, é no decorrer da vida que essa vocação vai se definindo. E depois porque ela, para que se concretize, necessita da formação, que é o processo de dar forma e direção à voz, estabelecendo limites e orientando o caminho para a sua realização. Um caminho cheio de percalços, que sofre resistência e solicita persistência e grande dispêndio de energia, mas o único – a via do trabalho – que leva à realização do sonho vocacional e, portanto, à realização de um desejo.

A formação o clínico – como a do escritor – exige, inicialmente, um mergulho na tradição. Se, como diz Vargas Llosa nas Cartas, é necessário que o escritor leia e conheça os clássicos da literatura para poder “construir o seu talento” (p.21) e desenvolver seu estilo, o clínico deve estudar profundamente aqueles que construíram os pilares da psicanálise. O segundo passo para a formação do clínico é a sua própria clínica, lugar por excelência em que poderá ultrapassar os discursos tradicionais e construir seu próprio discurso, baseado em sua experiência e pesquisa. Clinicar seria, para o clínico, a possibilidade de construir uma linguagem, um universo simbólico representativo de sua própria existência.

Conclusão

Ainda segundo Berlinck, o principal obstáculo psíquico à formação – seja de um escritor, monge ou clínico -, é a indolência. Pecado promovido pela acídia (ou acédia), um demônio que ataca com distrações, desvia a atenção e impede a ação, esse demônio do meio dia, – que se opõe à perseverança -, possui longa tradição na religião medieval e constitui um dos pecados capitais: o pecado da indolência.

A única saída para escapar da acídia é a obsessão. É, como diz Vargas Llosa, “assumir sua vocação como um cruzado, entregando-se a ela dia e noite, com uma convicção fanática, exigindo-se até extremos indizíveis.” A recompensa é o prazer de ter respondido e correspondido a um chamado de origem obscura, nascido de algum ponto perdido da memória.

Notas
(1) Setti, R. Conversas com Vargas Lhosa – 2. ed – São Paulo: Panda Books, 2011.

(2) Lhosa, M. V. Cartas a um joven novelista. México: Santillana Ediciones generales, 2011.

(3) Luchetti, D. Ascesa spirituale e misticismo di Santa Veronica Giuliani. Cittá di Castello: Centro Studi S. Veronica Giuliani, 1983.

(4) Berlinck, M. T. Pensamento freudiano III. O método clínico: observação e natureza III – Curso ministrado na PUC – São Paulo: Programa Psicologia Clínica, 2º. Semestre de 2011.

Adolescência e Transtornos Alimentares

Adolescência e Transtornos Alimentares

Adolescência e Transtornos Alimentares

Cybelle Weinberg

Introdução

Segundo a literatura (Nogueira; Pinzon, 2004; Guideline, 2000; Nielsen, 2001), e dependendo de definições mais restritas ou mais abrangentes, como afirmam Nogueira e Pinzon, a Anorexia Nervosa (AN) atinge entre 0,5 a 3,7 % da população e a Bulimia Nervosa (BN) entre 1,1 a 4,2 %. Estima-se que, entre as mulheres, os Transtornos Alimentares (TA) atinjam a proporção de 8 por 100 mil indivíduos, e entre os homens, de menos de 0,5 por 100 mil indivíduos por ano. Seu pico de incidência ocorre entre os 15 e 19 anos, começando mais cedo na Anorexia (12 a 15 anos) e mais tardiamente na Bulimia (18 a 20 anos). Nossa experiência no PROTAD, no entanto, confirma que tem havido um aumento significativo de casos descritos nas últimas décadas, uma maior incidência de Transtornos Alimentares em homens, além de um início cada vez mais precoce do quadro.

Devido a vários fatores, a adolescência é, como nos mostram os dados observados e a literatura, um período bastante favorável ao desencadeamento de um transtorno alimentar. O tipo de pensamento onipotente – “isso não vai acontecer comigo” / “posso parar quando quiser” – , aliado à impulsividade, maior vulnerabilidade aos apelos da moda, pressão do grupo, preocupações com o corpo e busca de uma nova identidade, faz da adolescência um campo fértil para o desenvolvimento de transtornos alimentares e comportamentos do tipo aditivo. Conhecer os conflitos próprios desta fase, portanto, é de importância capital para o entendimento dos TA e a condução do tratamento. Por isso, ainda que em sua etiologia estejam presentes fatores psicológicos, genéticos, sociais e familiares, serão privilegiados, aqui, os aspectos psicodinâmicos da questão.

O que é a adolescência

Período caracterizado por mudanças corporais e psicológicas, a adolescência tem seu início ancorado na puberdade. No entanto, como afirma Peter Bloss (1994), enquanto a “pubescência é um ato da natureza, a adolescência é um ato do homem”. Por isso é mais fácil determinar o início e o fim da primeira, marcada por transformações biológicas, e cada vez mais difícil determinar o início e o fim da segunda, que varia de acordo com as exigências sociais.
Percebemos, hoje, que a puberdade tem se apresentado cada vez mais precocemente e a “adolescência se alongado numa pós-adolescência que, indevidamente, prolongaria essa moratória entre a dependência da criança e os engajamentos do adulto, em decorrência de um prolongamento da escolaridade e uma demora a entrar na vida profissional.” (Jeammet e Corcos, 2005, p. 22). Desse modo, a independência econômica seria um dos fatores determinantes para o fim da adolescência. Por outro lado, como afirma Dolto (1990), “um jovem sai da adolescência quando a ansiedade dos pais não produz mais sobre ele nenhum efeito inibidor”, no momento em que é capaz de libertar-se da influência paterna, aceitando seus pais como são e resignando-se ao fato de não ser como os pais desejariam que fosse, “sem sentir-se culpado com isso”. (opus cit., p.27)

Jeammet, Corcos e Dolto concordam que as mudanças corporais, às quais o adolescente deve assisitir passivamente, remetem à dependência da primeira infância, “passividade potencialmente traumática para o eu, que vai se traduzir pelo sentimento de uma perda de controle e de uma ameaça de transbordamento e de desorganização”, nas palavras dos primeiros, e “tão fundamental para o adolescente já formado quanto o são, para o recém-nascido, o nascimento e os primeiros quinze dias de vida”, segundo Dolto.

“Para entendermos o que é a privação, a fragilidade do adolescente, tomemos o exemplo dos lagostins e das lagostas quando perdem sua casca: nessa época, eles se escondem sob os rochedos, o tempo suficiente para segregarem uma nova casca, para readquirirem suas defesas. Mas se, enquanto estão vulneráveis, forem golpeados, ficarão feridos para sempre, sua carapaça recobrirá as cicatrizes, que jamais se apagarão.” (Dolto, opus cit.,p.19)

Como se vê, a adolescência corresponde a um intenso processo de adaptação e à exigência de um enorme trabalho psíquico frente à necessidade de lidar com defesas importantes, disparadas pela angústia provocada pelas mudanças corporais.

Segundo Anna Freud (1958), o modo de agir do adolescente depende, muito, dos mecanismos de defesa que o ego emprega contra os impulsos do id, “uma vez que, na adolescência, impulsos de todas as fases pré-genitais aparecem na superfície e mecanismos de defesa de todos os níveis de crueza ou complexidade são empregados”, muito mais do que em qualquer outra época da vida. (opus cit., p.75)
Para a autora, dois tipos de defesas são observáveis nesta fase: as defesas contra os laços objetais infantis e as defesas contra os impulsos. As primeiras podem ser observadas nos seguintes comportamentos:
1 – o jovem afasta-se inteira e bruscamente dos pais, retirando dali sua libido e transferindo-a para objetos substitutos diametralmente opostos a eles, tanto nos aspectos pessoais, sociais como culturais;
2 – o adolescente se defende transformando as emoções sentidas por seus objetos infantis em seus opostos, trocando amor por ódio, dependencia por revolta, respeito e admiração por desprezo e escárnio. No entanto, permanece desse modo tão enlaçado às figuras parentais como estava antes e o reforço constante da defesa gera comportamentamentos hostis e pouco cooperativos;
3 – quando a retirada da libido antes dirigida aos pais não encontra seu destino, ela permanece dentro do self, podendo ser empregada para catexizar o ego e o superego, desta forma inflando-os, dando origem a idéias de grandeza e fantasias de “salvar o mundo”, muito características de alguns adolescentes;
4 – frente à enorme ansiedade despertada pelos laços objetais, o adolescente pode empregar defesas bastante primitivas, apresentando surpreendentes mudanças de qualidades, atitudes e aparência externa. Sua ligação às pessoas se evidencia, assim, nas alterações de sua própria personalidade, isto é, de suas identificações.

As segundas, as defesas contra os impulsos, são observáveis:
1 – no adolescente ascético, aquele que luta contra todos os seus impulsos, edípicos e pré-edípicos, sexuais e agressivos, estendendo a defesa inclusive para a realização das necessidades fisiológicas de alimentação, sono e conforto corporal. Esta, para Anna Freud, “parece a reação característica de um ego tomado pelo medo cego de demasiadas quantidades do Id, uma ansiedade que não deixa lugar para distinções mais finas entre satisfações vitais ou meramente prazenteiras, o saudável ou o mórbido, o moralmente permitido ou prazeres proibidos. É empreendida guerra total contra a busca de prazer como tal”. (op.cit., p.76 )
2 – no adolescente intransigente, posição adotada por aqueles jovens que, para defenderem suas idéias, “recusam-se a fazer concessões às atitudes dos mais velhos – mais práticas e adaptadas à realidade – e vangloriam-se de seus princípios morais e estéticos” (idem, p.77)

Em resumo, a adolescência é uma fase de grande vulnerabilidade, camuflada em atitudes de prepotência, arrogância e isolamento. E é no seio da família, espaço em que ocorreram os primeiros e mais significativos investimentos, que o repulsivo (em oposição à atração) vai se manifestar, por meio de condutas de oposição como cara feia, tédio e uma espécie de aversão ao contato físico, especialmente dos pais.

Adolescência e Transtornos Alimentares

Como vimos, a adolescência tem um papel essencial na eclosão de um transtorno, especialmente quando põe em evidência uma vulnerabilidade anterior. No entanto, se a adolescência caracteriza-se por um período de crise decorrente de todo um processo de adaptação e de exigências pulsionais, o que levaria alguns adolescentes a desenvolverem um transtorno alimentar e outros não?

Fernandes (2006) nos diz textualmente:

“Se a anorexia e a bulimia tendem a eclodir na adolescência é porque é nessa fase que aumenta a demanda pulsional, os perigos que vêm do interior do corpo. É preciso ter introjetado a função de pára-excitacão da mãe para poder lidar com o excesso pulsional. É assim que podemos também compreender que os transtornos alimentares não são uma expressão sintomática exclusiva das meninas, eles acometem também os meninos, pois seu fundamento se encontra na relação do sujeito com o outro.” (p.233)

Ou seja: é preciso que o adolescente, enquanto recém-nascido, tenha tido os cuidados de uma mãe atenta às suas necessidades, capaz de funcionar como uma espécie de anteparo, amenizando o desconforto causado pela quantidade de excitação externa e interna. A ausência desta mãe, deixando o bebê entregue a um desconforto inimaginável, à mercê de uma intensidade pulsional sem um aparelho psíquico capaz de elaborá-las, seria, de acordo com Fernandes, sustentada por Freud (1926), a origem da experiência da dor. E na adolescência, quando as mudanças corporais – que inauguram uma sexualidade genital – vêm solicitar um novo trabalho de elaboração pulsional, fica o jovem indefeso e exposto a excitações que não consegue administrar.

Outra contribuição importante para a compreensão dos transtornos alimentares na adolescência nos é dada por Mogul (1980), que concorda com Anna Freud quanto ao fato de ser o ascetismo na adolescência uma defesa contra os impulsos do id, mas, com relação aos transtornos alimentares, acrescenta ainda outro fator importante. Descrevendo a Anorexia Nervosa como “a mais ascética das desordens mentais”, “uma doença que coloca suas vítimas contra a natureza e até mesmo contra a própria vida” (1989), vê nela também uma defesa contra a sensação de falta de poder, como o disse Bruch (1978). Para aqueles jovens que referem uma sensação de não serem donos de si mesmos e não se percebem com uma identidade separada da mãe, o ascetismo promoveria um aumento no senso de poder, porém não com objetivos práticos de crescimento, mas como uma experiência subjetiva divorciada do mundo externo. A anoréxica, por exemplo, pode mostrar forte auto determinação recusando alimento, mas essa recusa leva a uma maior dependência: sua aparente força revela toda a sua fraqueza e a sua independência serve a uma depêndencia sem solução. Para Mogul e Bruch, portanto, a Anorexia teria a função de manter ao mesmo tempo uma dependência e um corpo infantis.

Segundo nossa observação, quando jovens com Anorexia nos falam de um peso e corpo ideais, é o corpo do púbere de 10, 11 anos que desejam ter: querem “apagar” os sinais externos da sexualidade, especialmente as meninas, que não desejam menstruar e não suportam as formas arredondadas de um corpo de mulher. Bruch associa claramente o temor ao desenvolvimento biológico com o desencadeamento de quadros de Anorexia. Em muitos casos, segundo suas observações, as mudanças físicas próprias da puberdade precipitam o desejo de emagrecer e o desenvolvimento normal é entendido como “gordura”. As anoréxicas, segundo Bruch, expressam com sua doença um profundo medo de serem adolescentes e apagam com sua magreza todos os sinais externos da sexualidade.

Nas meninas, é preciso lembrar, as modificações corporais, com o crescimento dos seios, do quadril e das formas curvilíneas, chamam mais a atenção e são mais impactantes do que nos meninos. Como já afirmamos em artigo anterior (Weinberg, 2001), quando uma menina entra na puberdade e vê seu corpo modificar-se, “assusta-se diante não só das novas sensações que esse corpo lhe propicia, mas também ante o que ele possa vir a despertar em outra pessoa” (p.152). Esse temor faz com que ela, já crescida, busque incessantemente um corpo infantil e conhecido e faz com que se aproxime da mãe de uma forma ambivalente. Num pedido de socorro, busca aquela mãe nutriz e protetora dos momentos precoces de sua infância, revivendo com ela um vínculo pré-edípico. Porém como ela sabe que esse vínculo é perigoso, ainda mais num momento em que precisa diferenciar-se e separar-se de sua mãe, o momento é vivido de forma conflituosa. Como me dizia tão bem uma paciente ao voltar de uma viagem que fizera sozinha, com o intuito de ficar longe da mãe (mas que não suportara e voltara antes do tempo combinado): “Quando vi minha mãe na estação, fiquei paralisada, não sabia se corria dela ou para ela.”

Conclusão

Segundo Aberastury e Knobel (1981), faz parte do processo normal da adolescência a busca de uma nova identidade e a elaboração das perdas do corpo e da identidade infantis, assim como dos pais da infância e de um funcionamento sexual infantil. Além disso, questões existenciais cruciais se colocam na adolescência, na forma de indagações do tipo “quem sou eu?”, “que profissão seguirei?”, “com quem quero me parecer?”, implicando um movimento de diferenciação e de separação gerador de muita angústia.

Meninas anoréxicas, especialmente, têm um histórico de filhas boas e obedientes, ótimas alunas, meninas ordeiras e “que nunca deram trabalho” em casa ou na escola. Mas que, segundo seus próprios depoimentos, nunca tiveram oportunidade de serem elas mesmas. Com freqüencia nos dizem que sempre fizeram o que seus pais queriam ou esperavam delas. Por isso, com a aproximação da adolescência, momento de afastar-se da família e de diferenciar-se, sentem-se incapazes de fazê-lo, confundindo separaçnao com traição.

Em muitos casos, tornar-se anoréxica pode ter sido o único recurso encontrado para adquirir uma identidade, ainda que pelo caminho da doença. Uma identidade que, além de atender a um ideal perfeccionista – “posso viver sem comer”, “quero manter esse peso que considero ideal”-, protege das crises normais da idade, mantendo essas meninas aprisionadas e congeladas no tempo.

De certo modo isso explica, entre outros fatores, porque é tão defícil sua recuperaçnao. Curar-se pode significar, na maioria das vezes, abrir mão de um lugar privilegiado, centro de atencões e cuidados, ainda que muito sofrido. Para algumas, “a anorexia foi a única forma encontrada para se diferenciarem e se colocarem como um sujeito com vontade própria; paradoxalmente, é quase desaparecendo que conseguem serem vistas” (Weinberg, op. cit., 162.

Por tudo isso, o atendimento ao adolescente com um transtorno alimentar deve incluir os pais, com o objetivo de ajudá-los a entender os movimentos próprios da adolescência e a suportar, concomitantemente ao crescimento e afastamento necessário dos filhos, o abandono de um lugar também privilegiado, de pais perfeitos e idealizados.

Bibliografia

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FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol.XX.

MOGUL, SL. Ascetism in adolescence and Anorexia Nervosa. Psychoanal. Study Child. 1980;35:155-75.

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PINZON, V. ; NOGUEIRA, FC Epidemiologia, curso e evolução dos transtornos alimentares. Revista Psiq Clin, 200, p. 158-160.4, n. 31(4)

WEINBERG, C. Vítimas da fome. In: Weinberg C.(org.) Geração Delivery. São Paulo: Sá Editora; 2001.

Artigo publicado originalmente em WEINBERG, C. (org.) Transtornos alimentares na infância e adolescIencia. Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Sá Ed., 2008, p. 47-58.

Anorexia Nervosa: uma doença da atualidade?

Anorexia Nervosa: uma doença da atualidade?

Anorexia Nervosa: uma doença da atualidade?

A influência da moda é, sem dúvida, um fator a ser considerado quando observamos o crescente número de pacientes que apresentam um quadro de anorexia nervosa. No entanto, seu papel é discutível quando analisamos os casos de recusa alimentar em outras épocas e outras culturas.

Muitas das mulheres beatificadas pela Igreja, por exemplo, fizeram do jejum autoimposto uma prática comum em suas vidas. A essa forma de recusa alimentar, presente no decorrer da Idade Média, deu-se o nome de anorexia santa. Além de perseguirem um ideal de santidade, essas mulheres faziam da recusa em alimentar-se uma forma de afirmar sua própria personalidade e resistirem a casamentos arranjados. Santa Vilgefortis, Santa Clara de Assis, Santa Catarina de Siena, Santa Rosa de Lima, Santa Veronica Giuliani, Santa Margarete, entre muitas outras, constituem exemplos de resistência e perseverança.

A anexação do jejum prolongado e autoimposto às ciências médicas emergentes no século XVII – que passaram a compreendê-lo como um sintoma patológico -, foi um importante fator para o declínio da chamada anorexia santa.

Denominada primeiramente de consunção ou atrofia nervosa pelo médico inglês Richard Morton em 1691 e de delírio hipocondríaco por Louis-Victor Marcé em 1859, a anorexia só passou a ser vista como uma entidade clínica em 1868 quando William Gull, durante o encontro do British Medical Association, em Oxford, descreveu o quadro, chamando-o naquele momento de apepsia histérica e mais tarde, em 1874, de anorexia nervosa.

Na mesma época (1873), na França, Charles Lasègue publicou um importante estudo sobre essa patologia, que chamou de anorexia histérica, discorrendo sobre os seus aspectos psicológicos e sublinhando os estágios mentais pelos quais as pacientes passavam no curso da doença.

Da mesma forma que Lasègue, Freud, em seus escritos (1893, 1895), chamou a atenção para os aspectos emocionais envolvidos na recusa alimentar, inaugurando um novo modo de compreensão da anorexia, que leva em conta a história de vida do paciente e foca a atenção nas motivações inconscientes subjacentes ao transtorno.

Hoje, ao contrário do que pregam alguns sites a favor da anorexia, entendendo-a como um estilo de vida, sabemos que trata-se de um transtorno psiquiátrico grave, que acarreta sérias complicações clínicas e pode levar à morte.

Artigo publicado originalmente no site www.euvejo.vc/ ,em 07/03/2018

Jejum Sagrado e Jejum Anoréxico

Jejum Sagrado e Jejum Anoréxico

O Jejum Sagrado e o Jejum Anoréxico:

maneiras radicais de lidar com as demandas do corpo

Introdução

Éric Bidaud (1998), em seu estudo sobre a anorexia, estabelece uma importante distinção entre o jejum proposto pelas diferentes religiões – marcado por datas comemorativas, com início e fim, “inscrevendo o sujeito numa ordem” -, e o jejum interminável, místico ou anoréxico, que ele denomina jejum absoluto. Este tipo de jejum, para o autor, estaria marcado pelo excesso, pela ultrapassagem daquele ponto do limite comum. E viver o excesso, em suas palavras, “é desejar até a renúncia: morte, consumição, despossessão…

Aproximar-se da morte o mais perto que se pode suportar, ponto onde se desfalece. Não há mais que este corpo que grita e sofre; trata-se de perder pé, embriagar-se, soçobrar.” (p. 47) Bidaud entende ainda o jejum absoluto não como uma busca da morte, da “desaparição passiva de si”, mas como a “trajetória gigantesca de uma negação, ativa e voluptuosa, daquilo que serve à manutenção comum da vida, como condição de plenitude”. (p. 44) Esse jejum só poderia ser compreendido, como ele afirma, quando resituado no interior de um projeto maior, de ultrapassamento e de superação de si mesmo.

A clínica parece confirmar suas suposições, quando jovens restritivas afirmam que não querem morrer, mas almejam uma vida de quietude, em que nada as venha perturbar. Tal como um anacoreta no deserto, combatem metodicamente as tentações, em busca de uma total apatia. Porém é preciso notar que, por trás desta aparente insensibilidade, há um jogo de forças, há um excesso que leva à exaustão, e uma negação que denuncia contestação, vaidade e poder.

Por trás de uma aparência frágil, emana raiva – um ódio alimentado por essa purificação sem fim – e contestação. Meninas descritas como meigas e dóceis resistem bravamente aos apelos do corpo, da família e ao tratamento. Assim como as santas jejuadoras desafiavam a Igreja, ultrapassando os limites dos calendários e desafiando os tribunais da Santa Inquisição.

Tendo abordado em trabalhos anteriores (WEINBERG, 2004; 2010), pontos semelhantes entre a vida de algumas santas jejuadoras da Idade Média e os casos de anorexia acompanhados na clínica como o excesso, o perfeccionismo, a perseverança, pretendemos nos debruçar, aqui, sobre o modo como as primeiras e as jovens com sintomas anoréxicos interpretam as demandas advindas do corpo. Para tanto, faz-se necessário, inicialmente, entender como esse corpo demandante tem sido compreendido pelo cristianismo, no Ocidente, através dos séculos.

O corpo no mundo romano

Antes do advento do cristianismo, o que se buscava, segundo o historiador Peter Brown (1990), era a administração do corpo. Durante o Império Romano, entre os séculos II e III, a expectativa média de vida era de 25 anos, por isso havia um incentivo à procriação. Se os romanos pregavam a abstinência, era com esse objetivo, pois segundo a crença comum, a atividade sexual frequente reduziria a fertilidade da semente masculina e para procriar era necessário ter virilidade, obtida por meio da abstinência, dietas e exercícios.
Brown afirma ainda que os romanos encaravam o coito como um dos muitos aspectos da vida que podia ser submetido ao controle mediante o bom senso e a educação: os códigos de decoro no leito conjugal davam continuidade ao eu público. O refinamento e o autocontrole distinguiam os bem nascidos de seus inferiores desregrados, ainda que esses mesmos aristocratas, como denunciavam os pregadores cristãos, patrocinassem festivais em que predominavam a crueldade e a libertinagem.

Por isso, sobre a ascensão do cristianismo no mundo romano, o autor afirma que não basta dizer que foi apenas a “passagem de uma sociedade menos repressiva para outra mais repressiva”, porque o que estava em jogo era a percepção do próprio corpo. Para os romanos, o desejo sexual não era problemático, “tampouco qualquer desejo era destacado como singularmente digno de reprovação”. (p. 36) Tal como a sociedade, o corpo existia para ser administrado, e não modificado, como pregavam alguns grupos cristãos espalhados pela região oriental do Mediterrâneo.

Jacques Le Goff (2008), por outro lado, ainda que concorde com a existência de um “puritanismo da virilidade” entre os romanos pagãos, bem antes da difusão do cristianismo, afirma que:
“Às razões que tinham conseguido impulsionar os romanos pagãos à castidade, limitar a vida sexual ao quadro conjugal, condenar o aborto, reprovar a “paixão amorosa”, levar ao descrédito a bissexualidade, os cristãos acrescentaram um motivo novo e que pressionava: a aproximação do fim do mundo, que exigia a pureza. São Paulo os adverte: “Eu vos digo, irmãos: o tempo é curto. Que doravante aqueles que têm mulher vivam como se não mais as tivessem” (1 Coríntios, 7, 29)”

Sob a influência do cristianismo, afirma Le Goff, “uma nova ética sexual impôs-se na Idade Média. A carne e o corpo são demonizados, como fonte de pecado. E a virgindade se torna o ideal da igreja. Durante séculos, o Ocidente viveu a era do recalque.” (2008, p.137)

A carne pecadora

No cristianismo, a ligação entre carne e pecado aparece já nos primeiros Padres da Igreja. Nas Cartas de Paulo – judeu que pregou nas cidades pagãs do mar Egeu e foi executado em Roma por volta do ano 60 – encontram-se as primeiras referências sobre o corpo no pensamento cristão: “perecível, fraco”, “semeado na desonra”, “carregando sempre a morte de Jesus”. “ Porque sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne… Vejo nos meus membros outra Lei que batalha contra a Lei de minha mente… Homem miserável que sou! Quem me libertará deste corpo de morte?” (Romanos 7:18)
Em Paulo, a imagem dualista é ilustrada pela antítese entre o espírito e a carne: em suas epístolas, vê-se o doloroso conflito entre o corpo e a alma e a atribuição dos pecados oriundos da rendição às exigências do corpo.

“Sendo uma coisa fraca em si, o corpo foi apresentado como estando à sombra de uma força poderosa, o poder da carne: a fragilidade física do corpo, sua propensão à morte e o inegável pendor de seus instintos para o pecado serviram a Paulo como uma sinédoque da condição da humanidade lançada contra o espírito de Deus. (…) A “carne” não era simplesmente o corpo (…) Em todos os escritos cristãos posteriores, a noção da “carne” inundou o corpo de associações perturbadoras: de algum modo, enquanto “carne”, as fraquezas e tentações do corpo faziam eco a um estado de desamparo e até de rebeldia contra Deus, estado esse que era maior do que o próprio corpo.” (Brown, 1990, p. 50)

Quanto ao celibato e ao casamento, a posição de São Paulo era a de que “Seria bom que o homem não tocasse em mulher”, porém sendo o matrimônio mais seguro que os males que a abstinência poderia provocar, “é melhor casar-se do que incendiar-se de paixão” (I Coríntios 7:9).

De um modo geral, os primeiros Padres da Igreja se encarregaram de trazer a vocação do deserto para o Ocidente, numa tentativa de incorporar o ascetismo oriental e a castidade cristã às práticas ocidentais. Como afirma Salisbury (1995):
“Os quatro primeiros Pais da Igreja (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio e Jerônimo) compartilhavam uma visão basicamente dualística da sexualidade, ou seja, viam uma linha divisória muito nítida entre o que era carnal (sexual) e o que não o era (espiritual). Aqui, é importante esclarecer que não estou usando o termo “dualístico” para sugerir que os primeiros Pais da Igreja teriam aderido ao dualismo gnóstico… Aquele dualismo herético estabelecia uma dicotomia entre bem e mal e um céu habitado por um Deus bom e um mau. Os primeiros Pais admitiam somente espiritualidade e bondade nos céus; sua perspectiva dualista se aplicava somente à Terra, e somente à Terra depois da Queda.” (p. 27)

Agostinho e o pecado original

A partir do século IV, com Agostinho, inicia-se uma nova visão cristã da sexualidade (Pelaja; Scaraffia, 2011), a ponto de Salisbury (1995) referir-se a ela como uma verdadeira revolução sexual e Brown (1990) afirmar que Agostinho “marca o fim de uma época importante da igreja primitiva”.

Agostinho, em seus escritos, ocupou-se especialmente em comentar e interpretar o episódio bíblico da queda de Adão e Eva e suas consequências para a humanidade. A novidade trazida por ele foi a de imaginar Adão e Eva dotados das mesmas características físicas e portanto sexuais, que nós. Não eram seres angelicais, mas havia a promessa de vir a ser, caso fossem obedientes. Como afirma Brown, “eles tinham sido colocados no Paraíso por um período probatório, para que aprendessem a experimentar e aceitar, com obediência inabalável e sincera gratidão, a gama completa dos prazeres de seres plenamente físicos, plenamente sociais e, como Agostinho estava perfeitamente disposto a concluir, plenamente sexuais.” (1990, p. 329)
Assim, no estado original de Adão e Eva o desejo sexual estava presente. A diferença é que esse desejo coincidia perfeitamente com a vontade da consciência e o casal havia desfrutado de uma união harmoniosa entre corpo e alma, quando o prazer sexual e a vontade caminhavam juntos. Foi a partir da desobediência por terem provado do fruto proibido, que as sensações sexuais descontroladas tornaram-se imediatamente palpáveis: “A mulher viu que a árvore era bonita e que as suas frutas eram boas de se comer. E ela pensou como seria bom ter conhecimento. Aí apanhou uma fruta e comeu; e deu ao seu marido, e ele também comeu. Nesse momento os olhos dos dois se abriram, e eles perceberam que estavam nus. Então costuraram umas folhas de figueira para usar como tangas.” (Gênesis, 3:5, grifo nosso)

É nesse instante, portanto, que se instala a vergonha sexual:
“Mal eles tornaram sua própria vontade independente da vontade de Deus, algumas partes de Adão e Eva se tornaram resistentes a sua vontade consciente. Seus corpos foram afetados por um novo e inquietante sentimento de estranheza, sob a forma de sensações sexuais que escapavam a seu controle. O corpo passou a não mais poder ser inteiramente abarcado pela vontade. Um sintoma minúsculo, mas ameaçador – no caso de Adão, o alvoroço de uma ereção sobre a qual ele não tinha nenhum controle -, advertiu os dois da derradeira evasão do corpo, como um todo, do abraço familiar da alma no instante da morte.” (Brown, 1990, p. 342).

Em outras palavras, o prazer que Adão e Eva sentiam no ato sexual, em sua vida anterior ao pecado da desobediência, adquiriu um impulso próprio e passou a se chocar com as intenções da vontade. Nesse novo modelo, a impotência, a frigidez, as poluções noturnas encontram uma explicação:
“Esquematicamente, o sistema do pecado segundo santo Agostinho (…) apresenta-se assim: no estado primitivo de retidão e de justiça, Adão e Eva controlavam perfeitamente todas as aspirações de seus corpos e notadamente seus desejos sexuais (é uma retomada do ideal estoico do sábio governando suas paixões). Se o paraíso terrestre não se tivesse desfeito, os homens teriam gerado filhos “sem nenhuma volúpia ou pelo menos com uma volúpia governada e regulada pela vontade”. (…) Mas a desobediência mudou tudo. Adão e Eva escorregaram da eternidade para o tempo (que é o lugar de toda degradação), da abundância para a miséria, da estabilidade para a debilidade. Eles não foram apenas submetidos ao sofrimento e à morte, mas perderam aquela subordinação das paixões à vontade que lhes tinha sido outorgada como uma graça especial. (…) Desde então “ele é dividido, disperso, estranho a si mesmo”. (Delumeau, 2003, p. 466 grifo nosso)

Desse estranhamento do homem com seu próprio corpo já falava Agostinho nas suas Confissões:
“Vós me mandais, sem dúvida, que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da ambição do mundo. Vós me ordenastes que me abstivesse das relações luxuriosas. Quanto ao matrimônio, apesar de o permitirdes, me ensinastes que havia outro estado melhor. E porque me concedestes isso, abracei-o antes de ser nomeado dispensador do Vosso Sacramento. Mas na minha memória, de que longamente falei, vivem ainda as imagens de obscenidades que o hábito inveterado lá fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm força. Porém, durante o sono, não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da ação. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir. Meu Deus e Senhor, não sou eu o mesmo nessas ocasiões? Apesar disso, que diferença tão grande vai de mim a mim mesmo, desde o momento em que ingresso no sono até àquele tempo em que de lá volto.” (30. Tríplice tentação, p. 244, grifo nosso)

O homem estranhando a si mesmo, debate-se com um corpo de vontade própria, com uma carne desobediente que paga pela desobediência:
“Enfim e para o dizer em poucas palavras – que pena foi imposta neste pecado à desobediência senão a desobediência? Realmente, que mais é a miséria do homem do que desobediência dele próprio a ele próprio? Porque ele não quis o que podia, já não pode o que quer.” (Agostinho, A cidade de Deus, Cap. XV)

E ainda:
“Embora haja desejos (libido, pl. libidines) de muitas coisas, todavia, quando se fala de libido, sem se acrescentar de que coisa é “desejo”, pensa-se quase sempre na excitação das regiões pudendas do corpo. Este desejo apodera-se não só do corpo todo, exterior e interiormente, mas agita também o homem todo, unindo e misturando as paixões da alma e as apetências carnais para esta volúpia, a maior de todas entre os prazeres do corpo. (…) mas nem mesmo os que se entregam a esta volúpia se sentem excitados quando querem, quer na união conjugal quer nas impurezas da devassidão. Às vezes esta emoção é inoportuna, surge sem ser solicitada; outras vezes abandona o que arde em desejo: a alma arde em desejo e o corpo fica gelado. Assim – coisa estranha! – não é só à vontade de gerar que a paixão se recusa a obedecer, mas à própria paixão de gozar. E embora, na maior parte das vezes, se oponha ao espírito que a refreia, vezes há em que se divide contra si própria agitando a alma sem agitar o corpo.” (A cidade de Deus, Cap. XVI)

No Paraíso, ao contrário, antes do pecado da desobediência, “os membros genitais obedeceriam ao arbítrio da vontade tal como os demais, e o marido ter-se-ia introduzido nas entranhas da esposa sem o aguilhão arrebatador da paixão libidinosa, na tranquilidade da alma e sem corrupção alguma da integridade do corpo.” (A cidade de Deus, Cap. XXVI)

Assim, diferentemente do que pensavam os primeiros Padres – para quem o sexo foi apresentado na Queda -, Agostinho defendia a sexualidade, entendendo a libido e a paixão como não naturais. Nas palavras de Salisbury (1995) para Agostinho a libido – e não a sexualidade – era o mal primordial e era a sua natureza que ele buscava compreender.

Outro ponto importante no pensamento de Agostinho, que rompe com a tradição platônica, é sobre o conflito entre a alma e o corpo. Se para o platonismo a alma participava do divino e havia uma separação insuperável, dentro do humano, entre alma e corpo, para Agostinho a separação entre o corpo e a alma é acidental, fruto do pecado original. E a verdadeira salvação não estaria no abandono do corpo e na volta da alma para seu lugar originário, mas no retorno da harmonia plena entre alma e corpo, após o juízo final. Aos corpos ressuscitados, Agostinho chama “corpos espirituais”: “Serão corpos com uma substância de carne, mas que não sofrerão, graças ao espírito vivificante, a menor corrupção ou o entorpecimento da carne.” (Cidade de Deus, XXIII)

A base e justificativa para essa união em cada homem, de uma alma e de um corpo, encontram-se na interpretação das palavras de João – “O Verbo se fez carne”. Pela Encarnação, ato da vontade divina, o Verbo indicou que não apenas a alma, mas o corpo pode ser salvo.

Vemos, assim, na tradição cristã, uma possibilidade de salvação para a humanidade. Criado à imagem e semelhança de Deus – corpo e alma formando uma unidade -, o homem, com o pecado original, viu-se nu e estranhou o próprio corpo. Com Cristo se fazendo homem, Deus é humanizado, encarnado, e traz a possibilidade de uma nova união entre corpo e alma, com a Ressurreição. Justifica-se, assim, a frase de Paulo: “Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé.” (1 Coríntios, 15:2)

“Não comerás!”
Desde a época mais remota do cristianismo o jejum autoimposto, tal como a castidade, foi recomendado como meio de salvação.
Tertuliano, no início do século III, defendia, além da continência sexual, os jejuns prolongados, que dariam à alma uma visão clara. O jejum era necessário, caso contrário “toda a habitação da pessoa interna fica saturada de alimento (…) um fluxo de pensamento que anseia por eliminar sua carga de excremento transforma-se em nada além de uma obsessão com o lavatório. Não lhe resta outra coisa senão passar daí para as ideias de concupiscência.” (Corpus Christianorum, 2:1261) E ainda: “um corpo emagrecido passará mais facilmente no portão do paraíso, um corpo leve ressuscitará mais rapidamente e na sepultura será melhor preservado.” (apud Vandereycken; Van Deth, 1994, p.15)

Jerônimo, líder espiritual de muitas mulheres romanas ricas no século IV, pregava uma vida de abstinência e orações. Entre suas seguidoras estava Eustóquio, nobre romana, filha de Paula (futura Santa Paula), a quem Jerônimo aconselhou: “Deixe suas companhias femininas, empalideça e emagreça com jejuns diários, digo com verdadeira determinação: Eu tenho o desejo de deixar velhos costumes e ser com Cristo.” (Bemporad, 1996). Blessila, a irmã mais nova de Esutóquio, aos 20 anos de idade, após ter enviuvado, foi também incentivada por Jerônimo a consagrar-se à vida ascética. Após quatro meses, no entanto, faleceu (em 383). Durante os seus funerais aconteceram tumultos, porque o povo atribuiu a morte da jovem à excessiva austeridade dos jejuns. (Dicionário Patrístico, 2002).

Também Agostinho, no século IV, falava sobre a bem aventurança de não precisar comer e beber:
“Depois da ressurreição os corpos dos justos de mais nenhuma árvore terão necessidade para não morrerem de doença ou de extrema velhice, nem de qualquer alimento corporal com que satisfaçam a necessidade de comer ou de beber. (…) daí o que disse o anjo no livro de Tobias: Víeis-me comer, mas era com os vossos olhos que me víeis, isto é, “julgáveis que eu tomava o alimento por necessidade de refazer o corpo como vós fazeis”. Talvez para os anjos haja uma explicação mais aceitável. Mas a nossa fé cristã não duvida, acerca do Salvador, de que Ele, mesmo depois da ressurreição comeu e bebeu com os seus discípulos, em carne de certo espiritual mas verdadeira carne. Na verdade, o que a tais corpos será tirado, não é a faculdade, mas a necessidade de beber e de comer. Segue-se disto que eles serão espirituais, não porque deixarão de ser corpos, mas porque subsistirão graças à vida do espírito.” (A cidade de Deus, XXII)

No final do século XII, o poema Os vermes da morte, de Hélinand de Froimont, citado por Le Goff (1994) atesta a preocupação constante dos cristãos com o destino do corpo:
“Um corpo bem alimentado, uma carne delicada,
é somente uma camisa de vermes e de fogo (os vermes do cemitério e o fogo do inferno).
O corpo é vil, fedorento e murcho.
O prazer da carne está envenenado e corrompe a nossa natureza.” (p. 146)

E Vieira, retomando no século XVIII o ascetismo dos Padres do deserto com o propósito de pregar a submissão aos pobres, recomenda ao comentar a pergunta Quo vadis?:
“Mas porque não cuides que te quero consolar por outro caminho, responde-me: Para onde vais: Quo vadis? Vais para a sepultura? Sim: e todos os mais ricos e abundantes do mundo para onde vão? Para a sepultura também. Dá, pois, muitas graças à estreiteza da tua mesa, e ao teu pouco pão; porque sendo certo que todos hão de chegar á sepultura sem nenhum remédio; só tu por comer menos chegarás à sepultura mais tarde, e só tu por comer menos, serás nela menos comido. (…) Suposto, pois, que todos havemos de morrer, e todos irmos para a sepultura, o maior favor que Deus pode conceder a um mortal, é que morra e chegue lá mais tarde. E este é o primeiro privilégio dos pobres, a quem a Providencia Divina quanto nega de abundância e regalo, tanto acrescenta de vida. (…) E depois de chegados uns e outros à sepultura, têm também dentro nela alguma diferença? Sim: e muito grande, que é o segundo privilégio dos pobres. A gula assim como ceva as aves, para que as comam os homens, assim ceva os homens, para que os comam os bichos. Miserável condição da nossa carne, comer para ser comida!” (Sermão da Quarta Dominga depois da Páscoa, IX)

As santas, as anoréxicas e as demandas do corpo

Podemos dizer que tanto as santas jejuadoras quanto as pacientes com sintomas anoréxicos apresentam maneiras radicais de lidar com as demandas do corpo. No entanto, a recusa em satisfazê-las parece atender a finalidades diferentes. Enquanto o jejum das primeiras pode ser entendido como uma tentativa de subjugar as demandas corporais às aspirações espirituais, a restrição alimentar na anorexia atende, aparentemente, a um apelo estético e a um verdadeiro pavor de engordar.

Como vimos nos textos religiosos, sob os olhos da Igreja um corpo magro estaria mais perto da santidade: daí os jejuns prolongados das místicas. E no discurso de quem sofre de uma anorexia há, igualmente, uma promessa de felicidade: “só magra eu serei feliz!”. Assim, na perseguição de um ideal de perfeição, ambas levariam uma vida de perseverança, ascetismo e abstinência: nada de prazer e total recusa em atender as necessidades do corpo.

A fala de uma jovem com anorexia – que poderia ser a de muitas outras – é exemplar: “eu preciso sair da mesa com fome, se saio satisfeita eu me sinto culpada…”. É preciso, sempre, manter esse corpo demandando, insatisfeito, paradoxalmente vivo pelo aguçamento da fome.

Maria Helena Fernandes (2006), ao falar de um “corpo recusado” na anorexia, apoia-se nos autores E. Kestemberg, J. Kestemberg e S. Decobert (1972) para lembrar que o apetite das anoréxicas não foi suprimido, mas que, ao contrário, “a sensação de fome é ela mesma investida eroticamente, provocando uma espécie de sofrimento orgástico que eles denominaram o “orgasmo da fome”. Situando-se além do princípio do prazer, tal gozo (no sentido de excesso) parece visar a uma autonomia através da busca de um tipo de auto satisfação, que esses autores aproximam do autismo.” (Fernandes, 2006)

Por mais distantes no tempo que estejam as santas e as jovens restritivas de hoje, a clínica nos mostra quão semelhantes se apresentam, na tentativa de subjugar um corpo que causa estranhamento e na perseguição de um ideal de perfeição. Quanto mais próximas desse ideal, mais próximas da felicidade, ainda que o preço seja um corpo descarnado, à beira da morte.

Referências bibliográficas

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DELUMEAU, J. O pecado e o medo. A culpabilização no Ocidente (séculos 13-18). Vol. I. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração; 2003.
Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Petrópolis: Vozes; 2002.
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LE GOFF, J. O imaginário medieval. Lisboa: Estampa; 1994.
LE GOFF, J. Uma longa Idade média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
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SANTO AGOSTINHO Confissões. 16ª. ed. Petrópolis: Vozes; 2000.
__________________ A cidade de Deus. Vol. II. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; 2000.
VANDEREYCKEN, W. ; VAN DETH, R. From fasting daints to anorexic girls: the history of self-starvation. New York: University Press;1994.
VIEIRA, A. Sermões. Lisboa: Lello & Irmão; 1951
WEINBERG, C. Avaliação crítica da evolução histórica do conceito de anorexia nervosa. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FMUSP; 2004.
______________ Do ideal ascético ao ideal estético: a evolução histórica da Anorexia Nervosa. Rev Latinoam Psicopat Fund V.13, n. 2, Junho de 2010; 224 – 237

Cybelle Weinberg e Manoel Tosta Berlinck. Artigo publicado originalmente na Trivium Revista Eletrônica, ano VII, 2-2015, p. 255-268.

Na prevenção dos Transtornos Alimentares, somos todos responsáveis

Na prevenção dos Transtornos Alimentares, somos todos responsáveis

Na prevenção dos Transtornos Alimentares,
somos todos responsáveis

A moda atual é apenas um dos fatores responsáveis pelo desencadeamento dos Transtornos Alimentares. Mas ainda que não seja o único, sua importância é capital, por envolver a questão da imitação. Hilde Bruch, psiquiatra e psicanalista alemã que desenvolveu seu trabalho de pesquisa nos Estados Unidos na década de 60, já alertara, naquela época, para esse comportamento tão característico das anoréxicas. Segundo a autora, jovens anoréxicas teriam tido dificuldade, ao longo de sua infância, de manifestar seus desejos e sentimentos frente aos pais, parecendo agir sempre em resposta à expectativa de outros. A anoréxica, para Bruch, seria como uma lousa em branco, a ser preenchida com a personalidade de cada nova pessoa com quem se envolve, com aquilo que a amiga gosta ou quer fazer.

Sabendo que a imitação é um fenômeno que ocorre normalmente na adolescência e especialmente entre jovens propensas a desenvolver um transtorno alimentar, impõe-se a questão da responsabilidade dos estilistas e produtores da moda, que ao promoverem nas passarelas imagens glamourosas de meninas esquálidas, motivam um batalhão de adolescentes que as tomam por modelo. Todas querem ser magras como elas, ainda que o preço seja a saúde física e mental. Por outro lado, se meninas com um peso normal começarem a fazer sucesso nas passarelas, nas propagandas e nas capas de revistas, a busca pelo corpo magérrimo tenderá a diminuir. Já conhecemos esta história: em meados do século XVII, quando os jejuns e as autoflagelações perderam significado religioso e foram substituídos pela caridade, pelo ensino e pela ajuda, o número de santas jejuadoras diminuiu.

E quanto à família? Pais, tios, tias, avós, maridos, namorados poderiam ajudar muito na prevenção de um transtornos alimentar, simplesmente prestando atenção nas suas falas. Se na mesa de refeições a conversa gira em torno das dietas, das calorias, do “isso engorda”, “isso não pode”, “vou comer mas depois vou correr”, não é de estranhar que até as crianças estejam preocupadas com o peso… Existem muitas outras conversas mais interessantes do que aquelas que giram apenas em torno das calorias de uma folha de alface! E muitas outras formas de elogiar – como você é inteligente, por exemplo – do que “como você emagreceu, que inveja!”.

Prestar atenção no que os jovens estão vendo nas redes sociais é outra forma de protegê-los da influência perniciosa de blogs, sites, postagens no Instagran. É preciso ajudá-los a desenvolver um espírito crítico, a perceber que corpos perfeitos não existem, que dietas não foram feitas para serem seguidas indiscriminadamente, que cada corpo tem as suas próprias necessidades.

A escola também tem um papel importantíssimo na prevenção dos Transtornos Alimentares. Infelizmente, por ignorar esse comportamento imitativo dos jovens e com a boa intenção de informá-los, acabam lhes dando “dicas” e ensinando métodos purgativos. Muitos jovens relatam que tiveram a ideia de que poderiam comer e não engordar ou ficar sem comer, depois de uma palestra sobre anorexia ou bulimia. O trabalho de prevenção nas escolas deve, portanto, seguir o caminho da promoção da boa alimentação, da saúde e da valorização de aspectos da personalidade.

Enfim, somos todos responsáveis: enquanto passarmos aos jovens a mensagem de que só magro faz sucesso e de que “quanto mais magro, melhor”, por que eles abandonarão esse projeto de morte? Não seria este um dos fatores perpetuadores da doença? Proponho aqui, então, tolerância zero para conversas sobre dietas milagrosas, calorias, peso, IMC… Chega desse papo!

Artigo publicado originalmente no site www.euvejo.vc/, em 13/09/2017


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