Non Ducor Duco

Non Ducor Duco*

Sobre a necessidade imperativa de controle nos Transtornos Alimentares

Sentada na poltrona à minha frente, Julia, de 17 anos, conta mais uma vez como foram as brigas em sua casa. Na maioria das vezes elas ocorrem porque os pais insistem para que ela coma, ainda que Julia acredite já ter comido o suficiente. Muito magra e com sinais de anorexia nervosa, não aceita que decidam o que e quanto ela deve comer. Por isso as brigas ocorrem, principalmente, na hora das refeições. Mas desta vez o motivo da discussão não foi a comida. Ela está revoltada porque a mãe interfere demais em seu namoro, questionando e “se intrometendo em tudo”. E na noite anterior a essa sessão, depois de ouvir a mãe contar ao pai algo que havia descoberto sobre ela e o namorado, começou a gritar e correu para o seu quarto, onde se trancou por várias horas até se acalmar.

Este fato chamou minha atenção porque não era a primeira vez que dizia que trancada em seu quarto, quieta e olhando para as paredes, conseguia certa tranqüilidade. Diferentemente de outros adolescentes, não era no computador, ao celular ou com o som alto que conseguia se acalmar. Era na quietude e na imobilidade que parecia se recuperar. Pedi, então, que o descrevesse para mim. De início, uma descrição de quarto comum de garotas, com livros, CDs, bichos de pelúcia, posters… E, de repente, um item inusitado: uma grande bandeira da cidade de São Paulo, esticada na parede em frente à sua cama. Eu lhe digo apenas Non ducor duco! E ela sorri para mim, satisfeita por ter sido compreendida: não quer que se intrometam na sua vida, que decidam o que deve vestir, comer, com quem deve namorar, que faculdade deve cursar. Enfim, que deseja conduzir sua própria vida.

Mas podemos ir um pouco adiante desse fato. A clínica nos mostra que além de quererem conduzir suas vidas, como acontece com a maioria dos adolescentes, jovens com anorexia controlam a fome e outras necessidades corporais, a família – que fica impotente frente a uma vontade férrea que as deixa à beira da morte -, e se possível também a equipe que conduz o tratamento.

O desejo de Julia de conduzir e não ser conduzida – porque em sua vida sempre a conduziram -, ou controlar e não ser controlada, é apenas um dos muitos exemplos que ouvimos na clínica dos Transtornos Alimentares. Antonio, um jovem anoréxico, dizia odiar quando, na puberdade, tinha ereções espontâneas, porque não as controlava. Lucia, 29 anos, com bulimia desde os 12, come descontroladamente, mas “decide” o que vai vomitar: come primeiro os alimentos calóricos e os vomita em seguida, repetindo esse comer e vomitar até se sentir cansada. Só depois de ter “vomitado tudo” come a salada e a deixa no estômago.

“Com Lactopurga VOCÊ controla seu intestino!”

Impossível não associar a frase acima, uma propaganda de laxante veiculada nos meios de comunicação, com os relatos de pacientes que exigem, de seu corpo, uma submissão total às suas determinações: peso, altura (uma paciente anoréxica queria chegar a medir 1,80m, a qualquer custo), o que e quanto comer,  vomitar, evacuar, ainda que, para isso, conduzam seu corpo a um estado de sofrimento indescritível.

Como compreender então o sentido dessa guerra, cuja batalha final leva à morte do corpo e impede que a vitória seja saboreada pelo vencedor? O que levaria alguém a viver de um modo miserável, em nome de algo estabelecido como meta? A resposta pode ser encontrada no comentário de uma jovem anoréxica, a respeito de uma modelo morta por inanição: Tiro o chapéu para quem morre magro. Mas tem que morrer magro de anorexia, não vale morrer magro de câncer ou de AIDS. Uma frase como esta, impactante e absurda num primeiro momento, pode, no entanto, trazer alguma luz para o entendimento desse conflito. Porque, em última instância, trata-se de um conflito. Um conflito entre aquilo que se quer e aquilo de que o corpo necessita para continuar vivendo. Em outras palavras, entre um superego massacrante e um corpo indefeso, que sucumbe nesse embate.  

Diante desse quadro, a questão apresentada ao clínico é a seguinte: seriam essas manifestações expressões de uma necessidade de controle obsessivo ou sintomas de um quadro melancólico? A que se deve esse desejo de controle?

Independentemente de ser um sintoma melancólico ou obsessivo, a necessidade vital de controle é um recurso último, radical, surgindo diante da impossibilidade de controlar qualquer outro aspecto da vida. Frases como “Minha mãe sempre falou por mim”, “Nunca pude decidir nada”, são clássicas na clínica dos transtornos alimentares e mostram como, caso não controlem ainda que apenas as necessidades corporais, a sensação é de impotência absoluta.

Outra característica marcante desses pacientes é o seu discurso autoacusatório, do tipo “Coitada da minha mãe, como eu a faço sofrer…”, e sempre protetor da figura materna. Como entender essa fala, constatada facilmente na clínica? E por que essas mães permitem que seus filhos ou filhas arrisquem a vida gastando até a última de suas calorias em atividades físicas, ou que deixem filhos com ideação suicida administrarem a própria medicação?

Essas observações nos fazem lembrar, primeiramente, do conceito de identificação com o agressor, mecanismo de defesa inicialmente descrito por Ferenczi em 1932 e depois por Anna Freud, em 1936. Como explicam Kahtuni e Sanches no Dicionário do Pensamento de Sándor Ferenczi :

“Sendo um dos possíveis efeitos do trauma na criança, a identificação com o agressor é um tipo de defesa psíquica no qual o sujeito confrontado com o objeto traumatogênico – normalmente uma figura de autoridade significativa -, identifica-se com seu agressor, compreendendo suas razões e introjetando sua culpa. Isso explicaria o fato surpreendente e comum de o sujeito traumatizado comumente sair em defesa de seu agressor.” (p. 211)

Pensemos sobre o processo da adolescência, momento crítico e propício para o desenvolvimento de um transtorno alimentar: em um certo momento do desenvolvimento – a puberdade -, é natural e esperado que a criança comece a ter uma visão mais crítica de seus pais. Pais heróis caem por terra e é preciso suportar a raiva e a dor da perda, aceitando os pais reais e encarando a necessidade de entrar no mundo adulto, precisando abandonar o “paraíso” da infância. Porém para a menina sem forças emocionais para elaborar esse luto, restaria apenas uma saída: incorporar a mãe idealizada, afastando a dor da desidealização. Comprometendo o processo de identificação, ela estaria impedida de seguir em frente no caminho em direção à feminilidade: quando deveria imitar a mãe, busca apagar em si qualquer traço lembrando um corpo de mulher. Negando a perda, vive em um eterno presente, controlando tudo: o outro incorporado, a realidade, o corpo, o tempo, e até a morte, se pensarmos como vivem à beira do abismo… A acusação dirigida a si mesma revelaria, por um lado, a raiva sentida por essa mãe (por não ser a mãe amorosa, idealizada por ela) e, por outro, o quanto está unida a ela.

Freud nos diz, em Luto e melancolia (1915), que se observarmos com atenção um paciente nessas condições, veremos que as críticas e depreciações feitas contra si não se aplicam verdadeiramente a si mesmo, mas a alguém que ele “ama, amou, ou deveria amar”. E que “as auto recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente”. (p. 280)

Considerando estes aspectos – necessidade de controlar, recusa em aceitar a realidade, dificuldade em elaborar perdas, discurso auto acusatório -, podemos associar os transtornos alimentares à melancolia e com isso chamar a atenção para a sua gravidade pois, como afirma Berlinck (2011), “em suas manifestações mais intensas, a melancolia pode ser vista como psicose”.

*A frase em latim Non Ducor Duco, que aparece escrita no brasão da cidade de São Paulo, significa “Não sou conduzido, conduzo”.

 

Referências bibliográficas

BERLINCK, M T. Prefácio. In BURTON, R. A Anatomia da melancolia. Curitiba; UFPR, 2011.

KAHTUNI, H C.; SANCHES, G P. Dicionário do pensamento de Sándor Ferenczi: uma contribuição à clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Elsevier; São Paulo: FAPESP, 2009.

FREUD, S. Luto e Melancolia. In: Edição Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.


Artigo publicado originalmente em Eating Disorders, suplemento da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, V. 15, n.3, setembro de 2012, com o título Non Ducor Duco. On the Urgent Need to Control, as Seen in Eating Disorders, p. 732-737.

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