Adolescência e Transtornos Alimentares

Adolescência e Transtornos Alimentares

Cybelle Weinberg

Introdução

Segundo a literatura (Nogueira; Pinzon, 2004; Guideline, 2000; Nielsen, 2001), e dependendo de definições mais restritas ou mais abrangentes, como afirmam Nogueira e Pinzon, a Anorexia Nervosa (AN) atinge entre 0,5 a 3,7 % da população e a Bulimia Nervosa (BN) entre 1,1 a 4,2 %. Estima-se que, entre as mulheres, os Transtornos Alimentares (TA) atinjam a proporção de 8 por 100 mil indivíduos, e entre os homens, de menos de 0,5 por 100 mil indivíduos por ano. Seu pico de incidência ocorre entre os 15 e 19 anos, começando mais cedo na Anorexia (12 a 15 anos) e mais tardiamente na Bulimia (18 a 20 anos). Nossa experiência no PROTAD, no entanto, confirma que tem havido um aumento significativo de casos descritos nas últimas décadas, uma maior incidência de Transtornos Alimentares em homens, além de um início cada vez mais precoce do quadro.

Devido a vários fatores, a adolescência é, como nos mostram os dados observados e a literatura, um período bastante favorável ao desencadeamento de um transtorno alimentar. O tipo de pensamento onipotente – “isso não vai acontecer comigo” / “posso parar quando quiser” – , aliado à impulsividade, maior vulnerabilidade aos apelos da moda, pressão do grupo, preocupações com o corpo e busca de uma nova identidade, faz da adolescência um campo fértil para o desenvolvimento de transtornos alimentares e comportamentos do tipo aditivo. Conhecer os conflitos próprios desta fase, portanto, é de importância capital para o entendimento dos TA e a condução do tratamento. Por isso, ainda que em sua etiologia estejam presentes fatores psicológicos, genéticos, sociais e familiares, serão privilegiados, aqui, os aspectos psicodinâmicos da questão.

O que é a adolescência

Período caracterizado por mudanças corporais e psicológicas, a adolescência tem seu início ancorado na puberdade. No entanto, como afirma Peter Bloss (1994), enquanto a “pubescência é um ato da natureza, a adolescência é um ato do homem”. Por isso é mais fácil determinar o início e o fim da primeira, marcada por transformações biológicas, e cada vez mais difícil determinar o início e o fim da segunda, que varia de acordo com as exigências sociais.
Percebemos, hoje, que a puberdade tem se apresentado cada vez mais precocemente e a “adolescência se alongado numa pós-adolescência que, indevidamente, prolongaria essa moratória entre a dependência da criança e os engajamentos do adulto, em decorrência de um prolongamento da escolaridade e uma demora a entrar na vida profissional.” (Jeammet e Corcos, 2005, p. 22). Desse modo, a independência econômica seria um dos fatores determinantes para o fim da adolescência. Por outro lado, como afirma Dolto (1990), “um jovem sai da adolescência quando a ansiedade dos pais não produz mais sobre ele nenhum efeito inibidor”, no momento em que é capaz de libertar-se da influência paterna, aceitando seus pais como são e resignando-se ao fato de não ser como os pais desejariam que fosse, “sem sentir-se culpado com isso”. (opus cit., p.27)

Jeammet, Corcos e Dolto concordam que as mudanças corporais, às quais o adolescente deve assisitir passivamente, remetem à dependência da primeira infância, “passividade potencialmente traumática para o eu, que vai se traduzir pelo sentimento de uma perda de controle e de uma ameaça de transbordamento e de desorganização”, nas palavras dos primeiros, e “tão fundamental para o adolescente já formado quanto o são, para o recém-nascido, o nascimento e os primeiros quinze dias de vida”, segundo Dolto.

“Para entendermos o que é a privação, a fragilidade do adolescente, tomemos o exemplo dos lagostins e das lagostas quando perdem sua casca: nessa época, eles se escondem sob os rochedos, o tempo suficiente para segregarem uma nova casca, para readquirirem suas defesas. Mas se, enquanto estão vulneráveis, forem golpeados, ficarão feridos para sempre, sua carapaça recobrirá as cicatrizes, que jamais se apagarão.” (Dolto, opus cit.,p.19)

Como se vê, a adolescência corresponde a um intenso processo de adaptação e à exigência de um enorme trabalho psíquico frente à necessidade de lidar com defesas importantes, disparadas pela angústia provocada pelas mudanças corporais.

Segundo Anna Freud (1958), o modo de agir do adolescente depende, muito, dos mecanismos de defesa que o ego emprega contra os impulsos do id, “uma vez que, na adolescência, impulsos de todas as fases pré-genitais aparecem na superfície e mecanismos de defesa de todos os níveis de crueza ou complexidade são empregados”, muito mais do que em qualquer outra época da vida. (opus cit., p.75)
Para a autora, dois tipos de defesas são observáveis nesta fase: as defesas contra os laços objetais infantis e as defesas contra os impulsos. As primeiras podem ser observadas nos seguintes comportamentos:
1 – o jovem afasta-se inteira e bruscamente dos pais, retirando dali sua libido e transferindo-a para objetos substitutos diametralmente opostos a eles, tanto nos aspectos pessoais, sociais como culturais;
2 – o adolescente se defende transformando as emoções sentidas por seus objetos infantis em seus opostos, trocando amor por ódio, dependencia por revolta, respeito e admiração por desprezo e escárnio. No entanto, permanece desse modo tão enlaçado às figuras parentais como estava antes e o reforço constante da defesa gera comportamentamentos hostis e pouco cooperativos;
3 – quando a retirada da libido antes dirigida aos pais não encontra seu destino, ela permanece dentro do self, podendo ser empregada para catexizar o ego e o superego, desta forma inflando-os, dando origem a idéias de grandeza e fantasias de “salvar o mundo”, muito características de alguns adolescentes;
4 – frente à enorme ansiedade despertada pelos laços objetais, o adolescente pode empregar defesas bastante primitivas, apresentando surpreendentes mudanças de qualidades, atitudes e aparência externa. Sua ligação às pessoas se evidencia, assim, nas alterações de sua própria personalidade, isto é, de suas identificações.

As segundas, as defesas contra os impulsos, são observáveis:
1 – no adolescente ascético, aquele que luta contra todos os seus impulsos, edípicos e pré-edípicos, sexuais e agressivos, estendendo a defesa inclusive para a realização das necessidades fisiológicas de alimentação, sono e conforto corporal. Esta, para Anna Freud, “parece a reação característica de um ego tomado pelo medo cego de demasiadas quantidades do Id, uma ansiedade que não deixa lugar para distinções mais finas entre satisfações vitais ou meramente prazenteiras, o saudável ou o mórbido, o moralmente permitido ou prazeres proibidos. É empreendida guerra total contra a busca de prazer como tal”. (op.cit., p.76 )
2 – no adolescente intransigente, posição adotada por aqueles jovens que, para defenderem suas idéias, “recusam-se a fazer concessões às atitudes dos mais velhos – mais práticas e adaptadas à realidade – e vangloriam-se de seus princípios morais e estéticos” (idem, p.77)

Em resumo, a adolescência é uma fase de grande vulnerabilidade, camuflada em atitudes de prepotência, arrogância e isolamento. E é no seio da família, espaço em que ocorreram os primeiros e mais significativos investimentos, que o repulsivo (em oposição à atração) vai se manifestar, por meio de condutas de oposição como cara feia, tédio e uma espécie de aversão ao contato físico, especialmente dos pais.

Adolescência e Transtornos Alimentares

Como vimos, a adolescência tem um papel essencial na eclosão de um transtorno, especialmente quando põe em evidência uma vulnerabilidade anterior. No entanto, se a adolescência caracteriza-se por um período de crise decorrente de todo um processo de adaptação e de exigências pulsionais, o que levaria alguns adolescentes a desenvolverem um transtorno alimentar e outros não?

Fernandes (2006) nos diz textualmente:

“Se a anorexia e a bulimia tendem a eclodir na adolescência é porque é nessa fase que aumenta a demanda pulsional, os perigos que vêm do interior do corpo. É preciso ter introjetado a função de pára-excitacão da mãe para poder lidar com o excesso pulsional. É assim que podemos também compreender que os transtornos alimentares não são uma expressão sintomática exclusiva das meninas, eles acometem também os meninos, pois seu fundamento se encontra na relação do sujeito com o outro.” (p.233)

Ou seja: é preciso que o adolescente, enquanto recém-nascido, tenha tido os cuidados de uma mãe atenta às suas necessidades, capaz de funcionar como uma espécie de anteparo, amenizando o desconforto causado pela quantidade de excitação externa e interna. A ausência desta mãe, deixando o bebê entregue a um desconforto inimaginável, à mercê de uma intensidade pulsional sem um aparelho psíquico capaz de elaborá-las, seria, de acordo com Fernandes, sustentada por Freud (1926), a origem da experiência da dor. E na adolescência, quando as mudanças corporais – que inauguram uma sexualidade genital – vêm solicitar um novo trabalho de elaboração pulsional, fica o jovem indefeso e exposto a excitações que não consegue administrar.

Outra contribuição importante para a compreensão dos transtornos alimentares na adolescência nos é dada por Mogul (1980), que concorda com Anna Freud quanto ao fato de ser o ascetismo na adolescência uma defesa contra os impulsos do id, mas, com relação aos transtornos alimentares, acrescenta ainda outro fator importante. Descrevendo a Anorexia Nervosa como “a mais ascética das desordens mentais”, “uma doença que coloca suas vítimas contra a natureza e até mesmo contra a própria vida” (1989), vê nela também uma defesa contra a sensação de falta de poder, como o disse Bruch (1978). Para aqueles jovens que referem uma sensação de não serem donos de si mesmos e não se percebem com uma identidade separada da mãe, o ascetismo promoveria um aumento no senso de poder, porém não com objetivos práticos de crescimento, mas como uma experiência subjetiva divorciada do mundo externo. A anoréxica, por exemplo, pode mostrar forte auto determinação recusando alimento, mas essa recusa leva a uma maior dependência: sua aparente força revela toda a sua fraqueza e a sua independência serve a uma depêndencia sem solução. Para Mogul e Bruch, portanto, a Anorexia teria a função de manter ao mesmo tempo uma dependência e um corpo infantis.

Segundo nossa observação, quando jovens com Anorexia nos falam de um peso e corpo ideais, é o corpo do púbere de 10, 11 anos que desejam ter: querem “apagar” os sinais externos da sexualidade, especialmente as meninas, que não desejam menstruar e não suportam as formas arredondadas de um corpo de mulher. Bruch associa claramente o temor ao desenvolvimento biológico com o desencadeamento de quadros de Anorexia. Em muitos casos, segundo suas observações, as mudanças físicas próprias da puberdade precipitam o desejo de emagrecer e o desenvolvimento normal é entendido como “gordura”. As anoréxicas, segundo Bruch, expressam com sua doença um profundo medo de serem adolescentes e apagam com sua magreza todos os sinais externos da sexualidade.

Nas meninas, é preciso lembrar, as modificações corporais, com o crescimento dos seios, do quadril e das formas curvilíneas, chamam mais a atenção e são mais impactantes do que nos meninos. Como já afirmamos em artigo anterior (Weinberg, 2001), quando uma menina entra na puberdade e vê seu corpo modificar-se, “assusta-se diante não só das novas sensações que esse corpo lhe propicia, mas também ante o que ele possa vir a despertar em outra pessoa” (p.152). Esse temor faz com que ela, já crescida, busque incessantemente um corpo infantil e conhecido e faz com que se aproxime da mãe de uma forma ambivalente. Num pedido de socorro, busca aquela mãe nutriz e protetora dos momentos precoces de sua infância, revivendo com ela um vínculo pré-edípico. Porém como ela sabe que esse vínculo é perigoso, ainda mais num momento em que precisa diferenciar-se e separar-se de sua mãe, o momento é vivido de forma conflituosa. Como me dizia tão bem uma paciente ao voltar de uma viagem que fizera sozinha, com o intuito de ficar longe da mãe (mas que não suportara e voltara antes do tempo combinado): “Quando vi minha mãe na estação, fiquei paralisada, não sabia se corria dela ou para ela.”

Conclusão

Segundo Aberastury e Knobel (1981), faz parte do processo normal da adolescência a busca de uma nova identidade e a elaboração das perdas do corpo e da identidade infantis, assim como dos pais da infância e de um funcionamento sexual infantil. Além disso, questões existenciais cruciais se colocam na adolescência, na forma de indagações do tipo “quem sou eu?”, “que profissão seguirei?”, “com quem quero me parecer?”, implicando um movimento de diferenciação e de separação gerador de muita angústia.

Meninas anoréxicas, especialmente, têm um histórico de filhas boas e obedientes, ótimas alunas, meninas ordeiras e “que nunca deram trabalho” em casa ou na escola. Mas que, segundo seus próprios depoimentos, nunca tiveram oportunidade de serem elas mesmas. Com freqüencia nos dizem que sempre fizeram o que seus pais queriam ou esperavam delas. Por isso, com a aproximação da adolescência, momento de afastar-se da família e de diferenciar-se, sentem-se incapazes de fazê-lo, confundindo separaçnao com traição.

Em muitos casos, tornar-se anoréxica pode ter sido o único recurso encontrado para adquirir uma identidade, ainda que pelo caminho da doença. Uma identidade que, além de atender a um ideal perfeccionista – “posso viver sem comer”, “quero manter esse peso que considero ideal”-, protege das crises normais da idade, mantendo essas meninas aprisionadas e congeladas no tempo.

De certo modo isso explica, entre outros fatores, porque é tão defícil sua recuperaçnao. Curar-se pode significar, na maioria das vezes, abrir mão de um lugar privilegiado, centro de atencões e cuidados, ainda que muito sofrido. Para algumas, “a anorexia foi a única forma encontrada para se diferenciarem e se colocarem como um sujeito com vontade própria; paradoxalmente, é quase desaparecendo que conseguem serem vistas” (Weinberg, op. cit., 162.

Por tudo isso, o atendimento ao adolescente com um transtorno alimentar deve incluir os pais, com o objetivo de ajudá-los a entender os movimentos próprios da adolescência e a suportar, concomitantemente ao crescimento e afastamento necessário dos filhos, o abandono de um lugar também privilegiado, de pais perfeitos e idealizados.

Bibliografia

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WEINBERG, C. Vítimas da fome. In: Weinberg C.(org.) Geração Delivery. São Paulo: Sá Editora; 2001.

Artigo publicado originalmente em WEINBERG, C. (org.) Transtornos alimentares na infância e adolescIencia. Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Sá Ed., 2008, p. 47-58.

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