A violência dos ideais na Anorexia Nervosa: o eu corporal em ruínas

Ana Paula Gonzaga
Cybelle Weinberg

Não entendo porque vocês insistem em mentir para mim. Não entendo porque vocês insistem para que eu coma, se estou explodindo de gorda. Não sei nem porque estão se ocupando de mim com tanta gente doente. Como sempre, só fui mais uma vez incompetente, como tudo que faço! Não entendo porque vocês não me entendem!

Esta fala, de uma adolescente internada em uma enfermaria psiquiátrica para tratar-se de Anorexia Nervosa, parece ter um caráter universal pela forma como representa quem sofre desse transtorno: a descrença no que lhe é dito, ou no que é próprio da realidade; uma distorção, em maior ou menor grau, da imagem corporal, ou da percepção que tem de seu corpo; um prejuízo importante na autoestima; um discurso autoacusatório e o estranhamento que isso provoca tanto em quem acompanha esses casos como nos próprios pacientes.

A chegada destas pacientes na clínica é impactante, não só pela sua indiferença frente aos riscos que correm, mas pelo contraste entre uma aparência cadavérica e um orgulho incontido por mais essa “conquista”. Num primeiro momento, não nos parece estarmos diante de um “eu em ruínas” (pois o que se apresenta é um “eu todo poderoso”), mas sim diante de um corpo em ruínas, e se há uma queixa, é a de que ele pode emagrecer ainda mais.

Via de regra, estamos diante de meninas jovens, que se destacam nos estudos, na prática esportiva, no trato social, mas que por ocasião da entrada na adolescência, “se percebem gordas” e iniciam uma dieta sustentada de forma drástica e sempre insuficiente para seus propósitos. O que começa como uma restrição calórica dispara uma severa privação de tudo ou quase tudo. A preocupação com a rotina alimentar passa a restringir sua vida social, o contato com os amigos, os laços afetivos e quase sempre, a vida acadêmica. Esse processo, que pode levar alguns meses, transforma uma jovem púbere e cheia de vida em uma menina isolada, entristecida, emagrecida e sem viço, a poucos passos da morte, sem se dar conta disso e ainda muito determinada a perder mais um quilo: um ideal passional e absurdo, associado nesse momento `a estética, ou a algo que se defende como estética. Da mesma maneira que devem ser as melhores alunas e estar sempre `a frente do que está sendo ministrado por seus professores, ou serem as melhores atletas etc., criam uma deformação, que é serem as “melhores magras”. Na realidade, o que parece estar sendo encenado é a vontade de alcançar o impossível, sob o imperativo de algum (ns) ideal (is).

A crença de que ainda é preciso perder mais peso, e que tem a forca de uma ideação delirante, nos leva a refletir sobre o que as faz acreditar nessa imagem distorcida, que as induz a iniciar uma dieta tão drástica, a ponto de negar suas necessidades, corrompendo o fio de ligação com a realidade, mesmo não se tratando de pacientes psicóticas.

Na tentativa de entender esse aspecto da subjetividade, que é o dos ideais que essas pacientes se impõem, partiremos da compreensão freudiana do processo de identificação e constituição do aparelho psíquico, considerando as forças pulsionais como seu motor.

Ao longo de sua obra, Freud sempre se ocupou e chamou a atenção para um modelo evolutivo da mente humana, composta por diferentes extratos não estanques. O modelo de aparelho psíquico proposto é, dessa forma, maleável e passível de adquirir diferentes configurações ao longo da vida, em função das demandas advindas do mundo externo e/ou das exigências pulsionais. Assim, os aspectos originários desse aparelho, que leva em conta elementos constitucionais e relacionais primários, e que determinarão constelações significativas na vida do sujeito, também configurarão novos arranjos ao longo de seu desenvolvimento, sem perder a qualidade de um processo que implica acontecimentos simultâneos e em diferentes instâncias, concomitantemente. Uma dimensão nesse complexo processo se passa na evolução do movimento identificatório.

Como bem assinala Silvia Bleichmar (2005), o que inaugura o pulsional na cria humana é “um outro humano, que é um adulto imbuído de sexualidade e que desconhece a existência do prazer sexual obtido nestes cuidados oferecidos ao recém-nascido , já que a fonte que o ativa é o inconsciente” (p. 131). Bleichmar afirma o caráter traumático e irredutível dessa implantação e postula, seguindo a teoria freudiana, que o trabalho psíquico que se impõe a essa mente incipiente será o de encontrar vias de descarga, ou de ligação, para as quantidades excedentes. Esse é o primeiro tempo da vida psíquica: o da instauração da pulsão, dado pelo desejo inconsciente materno. O segundo tempo caracteriza-se pela constituição do recalque originário, que tem por consequência a saída do autoerotismo e a instauração do ego constituído pelo narcisismo e pela base das identificações, em que o outro que interage com o bebê continuará tendo um lugar de importância, pois “se por meio de seu inconsciente a mãe excita a cria, ao mesmo tempo, a partir de suas representações egoico-narcísicas do pré-consciente, ela pode ver seu bebê como um todo, como uma Gestalt organizada, como um ser humano. A libido desligada, intrusiva, que penetra, será portanto ligada inicialmente por vias colaterais, por meio deste narcisismo estruturante que o vínculo amoroso propicia.” (opus cit., p. 132)

Vetttorazzo (2007) ressalta a ideia do papel estruturante do narcisismo no processo de constituição do ego e aponta o caráter de composição em camadas desse processo. Recorre a Freud e seu modelo das “cascas de cebola” para configurar o dinamismo e a complexidade desse movimento: “cada camada pode se constituir assim em um vértice diferente para se considerar a “condição narcísica” nos diferentes estágios da estruturação do eu e de suas vinculações com os objetos” (p.4). Daí derivaria um terceiro tempo, também proposto por Bleichmar, de instauração das instâncias ideais, tendo por referente essas identificações.

Sobre a importância e complexidade desses tempos inaugurais e seus desdobramentos clínicos afirma Vettorazzo, citando Bleichmar:

“…O ego não se constitui no vazio, mas sim sobre as bases das ligações prévias entre sistemas de representações pré-existentes e que estas ligações, tal como Freud descreveu no Projeto, consistem em investiduras colaterais. Em segundo lugar assinala que este ego que produz inibições e propicia ligações no decurso excitatório não está presente no vivente no início da vida. Corresponde ao outro humano, adulto, que, além de prover recursos para a vida, inscreva também de início estes recursos em sua potencialidade de “pulsão de vida”, quer dizer, de ordenamento ligador que propicie uma articulação da tendência regulada `a descarga” (opus cit., p. 7)

Assim, se por um lado “o ego instaura-se sobre um conjunto de ligações que asseguram sua estabilidade” (Bleichmar, opus cit., p.134), dele também derivarão as instâncias ideais ou o superego, em seu sentido de ego ideal e ideal de ego. Daí a importância de considerarmos esse “caldo” de representações e seus desdobramentos nos arranjos em que se constelarão essas instâncias. Ainda segundo Bleichmar, se prevalecem identificações narcisistas na constituição do ego, essas bases perecem em sua função de estabilidade e prevalece, na formação de agências superegoicas, o ego ideal narcisista. O que seria próprio `as patologias graves que, “apesar de não serem consideradas como psicóticas, não chegam também `a neurose: pseudo-self, estruturação borderline” (p. 134).

Considerar essa compreensão dos primeiros tempos de instalação do aparelho psíquico, que inclui a constituição do ego e sua derivação para as instâncias ideais sob a regência das identificações narcísicas, nos parece fundamental para discutirmos os aspectos dinâmicos que se encenam na Anorexia Nervosa.

O eu em ruínas ou um corpo em ruínas?                 

“Há um excesso de Laura em mim! Vejam como sobra…”

A angústia presente nessa fala é quase palpável, mas, ao mesmo tempo, difícil de se reconhecer como pertinente. Não é incomum que profissionais que tratam essas pacientes tentem convencê-las, lhes oferecendo os mais diferentes elementos de realidade, de que o que estão percebendo ou sentindo não corresponde ao factual. Tarefa inglória e sem sucesso: elas estão convictas de que há uma deformaçnao em seu corpo que se reflete, inclusive, no espelho.

Mas de que corpo estão falando? O engano parece se dar justamente quando ignoramos o corpo refletido no espelho. J.D. Nasio (2008), seguindo as conceituações de imagem corporal inconsciente, nos adverte: “todas as manhãs as pessoas se defrontam, diante do espelho, com duas imagens: a que está refletida, e a que é apenas sentida. A fusão dessas duas imagens do corpo – uma física, outra mental – define o eu de cada um”. Ainda segundo Nasio, “o eu é o si mesmo identitário, a fronteira filtrante do aparelho psíquico e, sobretudo, a imagem mental do corpo sentido” (p. 101).

Nasio parte das concepções de Lacan e Dolto para chegar `a compreensão de um eu corporal e imagético. Considera que a imagem inconsciente do corpo será composta “pelo conjunto das primeiras impressões gravadas no psiquismo infantil pelas sensações corporais que um bebê, até mesmo um feto, sente ao contato de sua mãe, ao contato carnal, afetivo e simbólico com sua mãe” (opus cit., p. 19). Circunscreve esse período aos primeiros três anos de vida em que a imagem do corpo será então significada por duas importantes descobertas. A primeira se refere ao estádio do espelho, proposto por Lacan, – quando o bebê pela primeira vez percebe-se refletido no espelho e compreende, ainda precariamente, tratar-se de sua imagem – como precursora e constitutiva do que seria um reconhecimento de si, como uma imagem global. A segunda, por volta dos três anos, quando a criança novamente será confrontada com sua imagem especular, só que dessa vez compreende “com amargura, que o reflexo que o espelho lhe devolve não é ela, que há uma defasagem irredutível entre a irrealidade de sua imagem e a realidade de sua pessoa” (opus cit., p. 19). Essa segunda descoberta é postulada por Dolto, como uma reação, traumática, por decepção e desencantamento, que promoveria o esquecimento das imagens inconscientes do corpo e o investimento do que é a aparência do corpo. Assim, ainda segundo Nasio, “a amargura da desilusão dá lugar `a astúcia inocente de uma criança que utiliza sua imagem especular em prol de seu narcisismo” (opus cit., p. 21).

Destacamos então, a importância das primeiras relações estabelecidas pelo bebê e sua mãe na constituição tanto do ego que representará as identificações narcisisantes, como postula Bleichmar; como na constituição das imagens inconscientes do corpo discutidas por Nasio e referenciadas na obra de Dolto. O eu determinado e subjetivado por esse conjunto de refrências – que obviamente são apenas parte da constituição do eu – trará consequências significativas na percepção e representação corporal de qualquer pessoa.

No caso das pacientes com anorexia, o corpo visto parece refletir o aprisionamento narcísico em que se encontram. O que está arruinado, maculado, deformado, é um corpo imaginário, representante de um ideal impossível de ser atingido. Assim, perseguem a perfeição, que quando não atingida, diante de suas altas exigências, transforma-se num fracasso de proporções catastróficas.

Fernandes (2008) ressalta que “essas jovens nos ensinam que mais do que um superego herdeiro do complexo de Édipo, esses casos nos confrontam com um ego ideal verdadeiramente tirânico, que concentra suas exigências na experiência do corpo.” Propõe ainda que se considere a derivação do ego ideal do narcisismo primário, o que nos permite vislumbrar “que esse ego ideal é, antes de tudo, corporal” (p. 215).

A violência dos ideais

“Quando não consigo me controlar e como, tenho que me punir: me corto, me mordo, me arranho…”     

Os sentimentos de decepção e frustração são frequentes e intensos nessas pacientes, indo desde uma autoacusação até atos praticados contra sua própria integridade. Castigar-se, punir-se, acusar-se, machucar-se, faz parte de uma rotina diante do que acreditam ser um fracasso por não conseguirem cumprir o contrato que fizeram consigo mesmas de não comer.

O início desses transtornos se dá, via de regra, com a entrada na adolescência, momento evolutivo que demanda a ressignificação e a consolidação dos elementos psíquicos subjetivados na infância. Autores como Aberastury e Knopel (1981) assinalam os lutos a serem elaborados nesse tempo que a adolescência inaugura, pela perda do corpo infantil, pelos pais, pela identidade infantil e pela bissexualidade. O que gostaríamos de ressaltar além do luto patológico vivido por essas adolescentes, é como os elementos que estamos destacando até aqui se integrarão a esses lutos.

Em artigo intitulado “Observações sobre a estrutura psicótica” (1994), Piera Aulagnier afirma a importância dessa primeira fase do desenvolvimento, que vai desde o nascimento até o momento de “enfrentamento entre o eu e seu ego especular” e desenvolve a ideia de que “esse momento fecundo que é o estágio (estádio) do espelho não é, em si mesmo, mais que um ponto de chegada” (p. 283). Ou seja, ele marcaria um ponto de uma história que teve seu início muito antes, no discurso parental, e que garantiu ao sujeito um lugar na cena familiar. Muito antes do parto, segundo Aulagnier, uma relação imaginária estabeleceu-se entre a mãe e o bebê:

“… o início da gravidez coincide – ou acentua – com a instauração de uma relação imaginária, na qual o sujeito filho não é representado pelo que é na realidade, um embrião em curso de desenvolvimento, mas pelo que, de um outro lugar, é denominado corpo imaginado, ou seja, um corpo completo e unificado, dotado de todos os atributos necessários para ele. […] e sobre essa imagem, suporte imaginário do embrião, se verte a libido materna. A imposição dessa imagem é tal que, nos primeiros tempos de vida, a vemos sobrepor-se `a criança.” (opus cit., p. 285)

De acordo com as suas observações, continua Aulagnier, tudo isso parece bastante óbvio. No entanto, não é o que acontece com aquelas mães que, com dificuldade para percorrer esse caminho, passam a gravidez observando as modificações de seu próprio corpo, não conseguindo imaginar aquele embrião como um corpo unificado e separado dela. Esse seria o funcionamento das mães das crianças psicóticas. O que, nos parece, não é o caso das mães das meninas anoréxicas. As mães das meninas que atendemos parecem ter percorrido um caminho oposto a esse, no sentido de terem superinvestido seus bebês. O que tem por consequência, uma prevalência desse corpo imaginado, com que foram sobrepostos pelo narcisismo materno, muito além “dos primeiros tempos de vida”.

Aprisionadas num lugar psíquico da mente materna, essas meninas carregam, instalada em sua imagem corporal, um estranhamento e uma terrível insatisfação, fruto de uma dívida impossível de saldar: a de ser a restituição narcísica para sua mãe. Tarefa hercúlea para essa menina, mas que é levada com razoável desempenho durante a infância, quando a mãe ainda tem poder sobre seu corpo, por meio de seus cuidados. No entanto, no momento da adolescência, quando esse corpo toma formas próprias, a menina, além de precisar fazer um luto pela perda do corpo infantil, vive o fracasso de não ter correspondido `aquele corpo imaginado por sua mãe. E quanto mais o corpo real não obedece e se afasta daquele idealizado, mais é preciso punir e castigá-lo.

Do lado dos pais, o que se vê é o estranhamento, como tão bem definiram Corso & Corso (1997): “os controles não funcionam mais, não respondem. Isso explica inclusive algumas desistências. Não são poucos os pais que, depois da chegada da adolescência dos filhos, jogam a toalha como se não houvesse mais nada a fazer”. Como diante de um jogo de videogame, “sentem-se impotentes diante da fatídica expressão game over […], o que, mesmo diante de uma boa pontuação, equivale a: “Cara, suas chances acabaram!” (p. 81).

“Suas Majestades os Bebês” chegam `a adolescência

“Não entendemos o que está acontecendo com a nossa filha… Sempre lhe demos tudo, nunca lhe faltou nada… Onde será que erramos?”

Uma das tantas dificuldades enfrentadas pelo profissional que atende pacientes anoréxicas é o manejo com os pais. Acostumados a lidar com uma menina dócil, obediente, filha e aluna “perfeita”, de repente encontram-se diante de uma filha que desconheciam: irritadiça, teimosa e dona de uma vontade férrea. Desconcertados, oscilam entre a necessidade de alimentá-la e deixá-la cuidar de sua própria dieta, intimidados diante de alguém que vence pela teimosia e pelo cansaço.

Perguntamo-nos, então, de onde viria essa força, essa capacidade para controlar a fome, o peso e, “de quebra”, a família? E por que irromperia na adolescência?

Para Hilde Bruch (1973), essa força esconderia a fragilidade e a incapacidade de controlar elementos importantes de suas próprias vidas, e a severa disciplina sobre seus corpos representaria o esforço desesperado de afastar o pânico de não ter poder. O excessivo interesse pelo corpo e seu tamanho, e o rígido controle sobre a comida, seriam sintomas tardios de uma luta desesperada contra o “sentimento de ser escravizado”, de não ser competente para levar uma vida própria. Nesta busca cega pela sua identidade, as jovens anoréxicas não aceitam o que seus pais e o mundo lhes oferecem: preferem passar fome a levar uma vida acomodativa.

Mario Rossi Monti (2008), em artigo que trata do contrato narcísico e da clínica do vazio, nos oferece importantes reflexões sobre a adolescência, e que podem ser transpostas para a presente discussão. O autor toma de Piera Aulagnier (1979) a ideia de um contrato narcísico implícito, que regularia a relação entre as gerações, vinculando uma `a outra e garantindo um lugar ao recém-chegado. Essas formulações, nos lembra Monti, já estavam presentes em Freud, na sua Introdução ao Narcisismo (1914):

“… se considerarmos a atitude daqueles pais especialmente ternos com seus filhos, temos de reconhecer que essa atitude é um novo despertar e uma reprodução do próprio narcisismo, do qual os próprios pais tinham desistido havia tempo (…). Ao mesmo tempo, esses pais também tendem a suspender, em favor da criança, todas as aquisições da civilização que seu próprio narcisismo fora obrigado a respeitar, e tornam a reivindicar, pela criança, privilégios dos quais tinham desistido havia tempo (…) Doença, morte, renúncia do prazer, restrições impostas `a vontade pessoal não devem ter validade para ela; as leis da natureza e da sociedade devem ser revogadas em seu favor, ela deve mais uma vez se tornar realmente o centro, o cerne da criação – aquela “Sua Majestade o Bebê” que outrora os pais se sentiam (…).” (p. 108)

A partir destas teorizações, Monti observa que, se isso era verdadeiro na época de Freud, nos tempos atuais, com o isolamento das famílias e a mortalidade infantil controlada, há uma valorização da infância nunca antes vista e o estabelecimento de um lugar especial para essas crianças, que realmente tornam-se os soberanos de suas famílias. Sentadas nesse “trono de verdade”, um “trono armadilha”, do qual é difícil descer, terão tudo e não terão nada, impedidas de se arriscar e construir sua próprias vidas. Quando crescidas, diante da fragilidade e do vazio de suas existências, “assistirão `a ruína das próprias ilusões megalomaníacas”. (opus cit., p. 251)

Perguntamo-nos, então, se ocorreria o mesmo com as anoréxicas de que estamos falando.

“Eu e meu pai sempre andávamos de mãos dadas e ele dizia que eu era a sua princesa… Agora tudo mudou.”

Meninas, em sua maioria filhas únicas ou primogênitas (1) colocadas no trono desde o nascimento – ou antes -, sempre corresponderam `as expectativas de seus pais: obedientes, cumpriram ao pé da letra a missão de prolongar narcísicamente as suas vidas. No momento da adolescência, chamadas a assumir as rédeas do seu destino, confrontam-se om a impotência e com o sentimento de estarem traindo seus pais. Sensação, esta, confirmada pelo afastamento deles, decepcionados e magoados com “sua princesa”, que não lhes obedece mais.

Mas que desobediência é essa? Elas não se opõem `a carreira profissional escolhida por eles, não se rebelam quanto `a exigência de horários, não reivindicam o direito de sair de casa quando e como bem entenderem. Simplesmente, param de comer! E passam a perseguir um ideal que, se atendido em sua totalidade, levam-nas `a morte. Mas a uma morte escolhida por elas, com um peso determinado por elas e do jeito que elas decidiram:

“Eu tiro o chapéu para quem morre de anorexia… Porque morrer magro de aids ou de câncer não tem mérito nenhum… Tem que morrer magro de anorexia, aí sim é que vale…”

Vale o quê? Vale decidir sobre a própria morte. Ideal de onipotência, que mascara a impotência de viver sua própria vida. Soberania e soberba de quem não tem nada, de quem triunfa sobre um ego arruinado, refletido, segundo Fernandes, “no espelho mortífero de seu ego ideal” (opus cit., p. 215).

 

Referências

 ABERASTURY, A.; KNOBEL, M. Adolescência normal. Porto Alegre: Artmed, 1981.

AULAGNIER, P. A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: , 1979.

____________ Un intérprete en busca de sentido. Madrid: Siglo veintiuno, 1994.

BLEICHMAR, S. Clínica psicanalítica e geogênese. São Paulo: Annablume, 2005.

BRUCH, H. Eating disorders: obesity, anorexia nervosa and person within. New York: Basic Books, 1973.

CORSO, M.; CORSO, D. L. Game over.  O adolescente enquanto unheimlich para os pais. In: Adolescência: entre o passado e o futuro. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.

FERNANDES, M. H. As mulheres, o corpo e os ideais. In: FERRAZ, F. (org.) Psicossoma IV. Corpo, história e pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

FREUD, S. (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras Completas, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

MONTI, M. R. Contrato narcisista e clínica do vazio. In: Rev. Latinoam. Psicopat. Fund. São Paulo, V. 2, junho 2008.

NASIO, J. D. meu corpo e suas imagens. Rio de janeiro: Zahar, 2009.

VETTORAZZO F., H. “O espelho” no mito de Narciso, em Machado de Assis e em Guimarães Rosa: o narcisismo pensado como condição de estruturação do Eu. Trabalho apresentado em Reunião Científica da SBP SP, maio 2007.

  • Dados coletados pela Clínica de Estudos e Pesquisas da Anorexia e Bulimia (CEPPAN).

Artigo publicado originalmente em MARRACCINI, E. M. (org.) O eu em ruína. Perda e falência psíquica. São Paulo: Primavera, 2010.

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